Um candidato de Recife recebeu 600 pontos de um corretor e 760 de outro no Enem 2025 — e terminou com nota mil, após decisão de uma banca extraordinária. O caso não foi isolado: quatro das dez redações que atingiram o desempenho máximo geraram grandes divergências entre os avaliadores.
Os dados constam nos microdados do Enem 2025, divulgados pelo Inep nesta semana. As outras seis redações nota mil foram avaliadas de forma unânime pelos dois primeiros corretores, sem necessidade de revisão adicional.
O que gerou as discrepâncias
Professores que participaram da banca avaliadora e docentes de cursinhos apontam dois focos principais de divergência: os critérios para o repertório sociocultural (competência 2) e uma mudança nas regras enviada por e-mail após os treinamentos presenciais.
O manual do candidato orientava que referências a autores, livros ou filmes precisavam ser contextualizadas — citações genéricas, chamadas de “repertório de bolso”, seriam penalizadas. O problema é que a linha entre o que é válido e o que é “de bolso” variou significativamente de corretor para corretor, com discrepâncias de até 80 pontos num mesmo texto.
Em um dos casos analisados, um candidato de Fortaleza recebeu 200 pontos na competência 2 dos avaliadores 1 e 4, mas apenas 120 dos avaliadores 2 e 3. Situação semelhante ocorreu com um candidato de Lauro de Freitas (BA), cujas notas na mesma competência variaram de 120 a 200 pontos.
Um dos repertórios contestados citava o filósofo camaronês Achille Mbembe e seu conceito de Necropolítica para discutir o envelhecimento da população. A banca final considerou a referência pertinente e adequada ao tema proposto. Outro corretor, lendo o mesmo texto, havia descontado 80 pontos.
Regra nova, comunicação falha
Uma mudança introduzida no Enem 2025 ampliou o impacto dos erros de repertório: um documento enviado por e-mail após os treinamentos presenciais passou a exigir que a competência 2 dialogasse com a 3. Na prática, um repertório mal avaliado passou a ser punido em duas competências simultaneamente — regra que pode não ter chegado de forma uniforme a todos os avaliadores do país.
Problema de gestão, segundo especialistas
Thiago Braga, gestor de Linguagens do sistema pH, aponta relação direta entre as mudanças tardias nas regras e as discrepâncias observadas. “Isso levanta perguntas da sociedade: será que todos os corretores receberam essas mudanças? Aqui, identificamos um problema de gestão grave que não pode acontecer novamente”, afirma.
Outro profissional que participou das correções atribui as divergências à falta de uniformidade nos cursos preparatórios do Inep. As orientações variaram de região para região. “Ficou subjetiva, a correção. Acredito que esse formato de fazer um curso presencial para 20 ou 30 corretores, no Brasil todo, gera discrepâncias. Uma formação totalizante, com uma perspectiva única, seria melhor”, relatou o avaliador.
O Inep afirma que o processo segue “rigorosamente os parâmetros pedagógicos, metodológicos e operacionais previstos nos instrumentos oficiais do exame”. A instituição não se pronunciou especificamente sobre as divergências registradas nos microdados.
A questão de fundo permanece sem resposta oficial: a banca extraordinária corrigiu injustiças cometidas pelos primeiros corretores, ou acabou beneficiando candidatos que não deveriam ter atingido a nota máxima?
