A Turquia vai sediar a COP31 em Antalya, em novembro de 2026, num paradoxo da diplomacia climática: é o maior gerador de eletricidade a carvão da Europa e tem seus compromissos climáticos classificados como “criticamente insuficientes” por avaliações independentes.
Do outro lado, os Estados Unidos protagonizaram uma ausência sem precedente: pela primeira vez desde a criação das conferências climáticas da ONU, nos anos 1990, Washington não enviou nenhuma delegação oficial à cúpula realizada no Brasil, em Belém.
O contraste ganhou um símbolo improvável: Turquia e EUA se enfrentam nesta quinta-feira (25) pela Copa do Mundo 2026 — mas fora dos gramados, os dois países vivem momentos opostos na agenda climática global.
A anfitriã contraditória
A Turquia foi escolhida para sediar a COP31 após disputa com a Austrália que durou mais de três anos. O acordo final foi inédito em três décadas de conferências do clima: os turcos assumirão a presidência formal do evento, enquanto os australianos conduzirão as negociações propriamente ditas. Uma etapa preparatória também está prevista em uma nação do Pacífico, região historicamente afetada pelo avanço do nível do mar.
Mas a escolha vem carregada de contradições. A Turquia foi o último integrante do G20 a ratificar o Acordo de Paris, o que fez somente em 2021, e definiu a meta de zerar emissões líquidas apenas em 2053. A trajetória prevista ainda permite que as emissões cresçam até o fim dos anos 2030 antes de começar a cair — ritmo considerado incompatível com os objetivos do próprio Acordo.
O carvão é o nó central do problema. O país é hoje o maior gerador de eletricidade a partir dessa fonte em toda a Europa, com contratos de compra de energia de usinas carboníferas ainda vigentes por alguns anos. O governo também aposta em exploração de petróleo e gás e numa usina nuclear construída com participação russa — o que, segundo analistas, amplia a dependência energética externa em vez de reduzi-la.
Há avanços reais: a geração eólica e solar já supera a média mundial no país, e a capacidade de armazenamento em baterias cresceu de forma expressiva nos últimos anos. Ainda assim, organizações de direitos humanos já levantam questões sobre o espaço que ativistas climáticos terão num país com histórico de restrições ao protesto — padrão que também marcou COPs recentes no Azerbaijão, nos Emirados Árabes e no Egito.
A primeira grande falta americana
Em janeiro de 2025, Donald Trump retirou formalmente os EUA do Acordo de Paris — repetindo movimento de seu primeiro mandato — mas desta vez foi além. O governo americano não enviou nenhuma delegação oficial à COP de Belém, num vácuo sem precedentes desde que essas conferências surgiram nos anos 1990. Praticamente todos os outros países do mundo, incluindo nações com poucos recursos diplomáticos, mantiveram representação no evento.
A ausência não veio sozinha. Ela acompanha cortes em programas de energia limpa, revisão de regras ambientais para veículos e indústrias, e o fechamento do setor do Departamento de Estado responsável pela participação americana nas negociações climáticas internacionais — deixando o país sem estrutura dedicada a representar seus interesses no tema.
A resposta veio de outro nível de governo: uma coalizão de governadores e prefeitos ativa desde 2017 marcou presença em Belém de forma independente. E a energia limpa continua avançando no país por lógica de mercado — painéis solares e baterias mais baratas impulsionam novos investimentos mesmo sem suporte da Casa Branca.
Especialistas apontam que o recuo de Washington abre espaço para a China ganhar protagonismo na definição de padrões globais para a transição energética. A COP31 em Antalya será o próximo teste — e deve retomar o debate sobre o fim dos combustíveis fósseis, tema que ficou em aberto após a conferência no Brasil.
Não por acaso, a mesma Copa do Mundo que coloca turcos e americanos frente a frente em campo já é apontada como a edição mais poluente da história, com projeção de 7,8 milhões de toneladas de CO₂ emitidas ao longo do torneio — impulsionadas pela expansão para 48 seleções e pelos voos intercontinentais em série.
