O governo do Rio de Janeiro calcula recuperar apenas R$ 1,4 bilhão dos mais de R$ 3 bilhões que o RioPrevidência alocou no Banco Master — instituição do empresário Daniel Vorcaro liquidada no ano passado após investigações sobre irregularidades na captação de recursos previdenciários.
A estimativa foi divulgada pelo governador em exercício Ricardo Couto nesta segunda-feira (8), em Brasília, após encontro com o ministro da Fazenda, Dario Durigan. Couto afirmou que medidas judiciais já foram tomadas e que parte dos recursos está bloqueada como garantia de ressarcimento.
Aportes sem aval e fundos exclusivos
A dimensão do rombo vai além do volume financeiro. Segundo representação da Polícia Federal enviada ao Supremo Tribunal Federal, o RioPrevidência foi o único cotista de dois fundos criados pelo Master: o Arena Fundo de Investimento em Renda Fixa Título Público e o Horizonte I Fundo de Investimento Renda Fixa Longo Prazo.
A PF aponta que os aportes ocorreram em fundos recém-criados ou com pouca trajetória — estrutura que, segundo o órgão, levanta suspeitas sobre a destinação dos recursos de regimes próprios de previdência social no banco de Vorcaro.
Além disso, os investimentos cresceram sete vezes em apenas um ano sem que o Comitê de Investimentos do RioPrevidência formalizasse qualquer aprovação — sinal de alerta sobre a governança do fundo responsável pela aposentadoria dos servidores estaduais fluminenses.
Dois meses antes das revelações mais recentes, a Polícia Federal já havia informado ao STF que um “alinhamento político” entre o ex-governador Cláudio Castro e o banqueiro Daniel Vorcaro foi o mecanismo central para direcionar os bilhões ao Master — com troca estratégica de cargos no fundo para viabilizar os aportes sem justificativa técnica.
Crise fiscal e o terreno da Refit
A reunião com Durigan foi mais ampla. Couto discutiu também a dívida do estado com a União, que já alcança R$ 231 bilhões. O Rio aderiu ao Regime de Recuperação Fiscal em 2017, e uma liminar do STF mantém as parcelas mensais em R$ 270 milhões — mas a decisão expira em julho, quando o valor saltaria para R$ 436 milhões, tornando inviável a prestação de serviços essenciais, segundo o governo estadual.
A saída apontada é o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas (Propag), aprovado pela Alerj no fim de 2025. A adesão reduziria a parcela mensal para R$ 119 milhões — economia de R$ 4 bilhões por ano, com juros que podem chegar a zero. Couto sinalizou que a assinatura deve ocorrer até o fim do mês, com a apresentação de ativos estaduais à União como parte das negociações.
Na mesma agenda, o governador anunciou discussões no Ministério da Justiça sobre o destino do terreno da Refit, antiga Refinaria de Manguinhos — área de 600 mil metros quadrados com dívida superior a R$ 13 bilhões com o estado. A ideia é desapropriar o espaço e usar o valor da venda para abater parte do passivo. O grupo é apontado como um dos maiores sonegadores do país e teve suas operações interditadas pela ANP em setembro de 2025. O esquema foi exposto pela Operação Sem Refino, que apontou sonegação superior a R$ 50 bilhões com a máquina pública fluminense cooptada para proteger a refinaria fantasma.
