Solvente industrial vendido no lugar da gasolina. Esse é o núcleo do esquema investigado na nova fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (28), que apura fraude tributária, sonegação e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.
O produto desviado é a nafta — matéria-prima petroquímica com tributação reduzida — repassada ilegalmente a postos como se fosse gasolina para veículos. Especialistas alertam: o combustível adulterado pode destruir motor, bomba de combustível, bicos injetores e catalisador.
A operação identificou o desvio de solventes petroquímicos importados com alíquota significativamente menor do que a aplicada à gasolina. Esses produtos eram inseridos na cadeia de distribuição e comercializados nos postos como gasolina comum, gerando lucro ilícito e expondo consumidores a danos mecânicos sérios.
Para Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação de Engenharia Automotiva (AEA), até pequenas quantidades de nafta na gasolina já produzem sintomas perceptíveis. “Se você não está pisando muito, numa estrada, em velocidade constante, ele não vai causar problema. Quando você retoma velocidade, quando acelera, pode até destruir totalmente o motor”, afirma o especialista.
O que o combustível adulterado afeta no carro
Bruno Bandeira, mecânico e proprietário da Oficina Mecânica Na Garagem, explica que os danos atingem praticamente todas as partes do veículo por onde o combustível circula. Os problemas costumam aparecer com o motor frio, geralmente no dia seguinte ao abastecimento — quando ainda há combustível limpo do tanque anterior misturado ao adulterado.
Um caso concreto ilustra a extensão dos estragos: um Volkswagen Nivus 2023 abastecido com produto adulterado precisou de reparos em múltiplas peças, incluindo o catalisador, entupido pela queima inadequada do combustível.
Como identificar o combustível adulterado
Reconhecer nafta na gasolina apenas pela aparência é difícil, segundo os especialistas. Dois sinais se destacam: o cheiro diferente do habitual e o acendimento da luz de alerta da injeção logo após o abastecimento. “O combustível alterado faz com que sature a leitura dos sensores e faz ligar essa luz”, explica Orli Robalo, mecânico de Porto Alegre (RS).
O aumento no consumo também serve de alerta, segundo Gonçalves. Denis Marum, mecânico com formação em engenharia mecânica, aponta a perda de potência como sinal claro de adulteração por metanol — outra substância identificada no esquema investigado.
De acordo com a investigação, o combustível ligado ao PCC chegava a ter 90% de metanol na composição. O metanol, presente no biodiesel, provoca danos graves em veículos a gasolina ou etanol, incluindo corrosão de componentes internos e saturação dos sensores do motor.
Na véspera da deflagração desta fase, o Ministério da Fazenda havia revelado como o monitoramento de fintechs pela Receita Federal foi decisivo para desmontar o esquema — 56 postos tinham movimentações concentradas em uma única conta para ocultar a origem dos recursos.
