Um juiz federal dos Estados Unidos arquivou nesta sexta-feira (22) a acusação criminal contra o imigrante salvadorenho Kilmar Abrego e concluiu que o governo Trump abusou de seu poder ao processá-lo em retaliação por ele ter acionado a Justiça contra a própria deportação.
A decisão foi proferida por Waverly Crenshaw, magistrado federal de Nashville, no Tennessee. Para ele, o Departamento de Justiça reabriu investigações antigas contra Abrego apenas para criar uma justificativa legal para seu retorno aos Estados Unidos.
O caso de Kilmar Abrego tornou-se um dos mais emblemáticos da política de deportações em massa do governo Trump. Em março de 2025, ele foi enviado para uma megaprisão em El Salvador — mesmo existindo uma decisão judicial anterior que proibia seu retorno ao país sob risco de perseguição.
Após a Suprema Corte dos EUA determinar que o governo facilitasse o regresso de Abrego, o Departamento de Justiça apresentou uma acusação criminal por suposto tráfico de pessoas, ligada a uma abordagem policial ocorrida em 2022. O governo então trouxe o imigrante de volta aos Estados Unidos em junho de 2025.
Retaliação reconhecida pelo Judiciário
Em uma decisão considerada rara no sistema judicial americano, Crenshaw escreveu que o Departamento de Justiça não conseguiu rebater a conclusão de que a acusação teve motivação retaliatória. O magistrado destacou que Todd Blanche, então vice-procurador-geral, chegou a declarar publicamente, em entrevista à Fox News, que a investigação contra Abrego foi iniciada após a juíza Paula Xinis, de Maryland, questionar a legalidade de sua deportação.
Blanche sequer prestou depoimento em audiência realizada em fevereiro de 2026 para discutir o possível arquivamento do caso. Ele ocupa hoje o cargo de procurador-geral interino dos Estados Unidos.
Abrego declarou-se inocente e argumentou, desde o início, que a acusação era uma represália por ter acionado o Judiciário para retornar ao país. O Departamento de Justiça informou que recorrerá da decisão.
O caso de Abrego ainda está longe de um desfecho definitivo. Após seu retorno aos EUA, o governo Trump retomou os esforços para deportá-lo para um terceiro país, diferente de El Salvador. Em dezembro de 2025, a juíza federal Paula Xinis determinou sua libertação da custódia imigratória.
Os advogados do salvadorenho reagiram com uma declaração que mistura alívio e crítica à erosão democrática: “Enquanto este governo continua desgastando nossa democracia, seguimos gratos por um Judiciário independente que aplica os precedentes legais aos fatos de forma imparcial.”
O próprio juiz Crenshaw já havia sinalizado em 2025 que havia uma possibilidade concreta de acusação motivada por vingança — o que a decisão desta sexta confirmou formalmente, ao citar declarações públicas do próprio governo como evidência da retaliação.
O caso Abrego não é isolado. Interferências políticas nas deportações têm se acumulado na era Trump: em abril, reportagem revelou que um aliado direto do presidente teria acionado o ICE para deportar sua ex-esposa brasileira logo após uma ligação à agência de imigração.
