A América Latina e o Caribe nunca esquentaram tão rápido. Um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgado nesta segunda-feira (18) aponta que a região vive o período de aquecimento mais acelerado desde o início das medições, em 1900.
O documento foi lançado em Brasília e tem como autor principal o climatologista brasileiro José Marengo, do Cemaden. Os dados abrangem 125 anos de registros, divididos em quatro recortes de 30 anos cada.
O intervalo de 1991 a 2025 é de longe o mais quente. Na América do Sul, as temperaturas sobem 0,26°C por década. O México lidera o ranking com 0,34°C — mais do que o triplo do ritmo registrado entre 1961 e 1990.
Recordes de calor e mortes silenciosas
Em 2025, ondas de calor com temperaturas acima de 40°C varreram grandes áreas das Américas. Mexicali, no México, marcou 52,7°C — novo recorde nacional. No Paraguai, Mariscal Estigarribia chegou a 44,8°C, e o Rio de Janeiro atingiu 44°C.
A temperatura média da superfície na região em 2025 ficou entre a quinta e a oitava mais alta já registrada, segundo a OMM.
O calor extremo também se consolidou como problema crescente de saúde pública. A agência estima cerca de 13 mil mortes por ano associadas ao calor, em média entre 17 países no período de 2012 a 2021. O próprio relatório reconhece que o número está subestimado: a maioria dos países não sistematiza dados sobre óbitos causados diretamente pelo calor. A OMM recomenda que esse tipo de registro passe a ser produzido com regularidade e integrado aos sistemas de alerta meteorológico.
Chuva e seca no mesmo continente
O comportamento das precipitações mudou de forma desigual na região. Na média das últimas cinco décadas, os períodos secos ficaram mais longos e os episódios de chuva, mais intensos.
No Brasil, o quadro é dividido: o Sul acumula mais chuva anual e enchentes mais frequentes, num padrão compartilhado com o Uruguai e o norte da Argentina. O Nordeste, por sua vez, figura entre as áreas que mais secam no continente, ao lado do Chile central e de partes da América Central.
Na Amazônia, as estações secas estão mais longas, mas, quando chove, chove com mais força. As secas também se tornaram mais frequentes no sul e no leste da floresta.
Em 2025, mais de 110 mil pessoas foram atingidas por enchentes no Peru e no Equador em março. No México, chuvas em outubro deixaram 83 mortos — e ainda assim a seca chegou a cobrir 85% do território mexicano no auge da estiagem, com falta de água em lavouras e reservatórios.
Oceanos também registram marcas históricas
O relatório da OMM dedica atenção especial ao que está acontecendo nas águas que banham a América Latina — uma região que concentra 8,8% do litoral mundial.
Em 2025, o pH da superfície do mar atingiu o nível mais baixo já registrado em grandes áreas do Atlântico e do Pacífico próximos à região. É a acidificação dos oceanos, processo causado pela absorção de CO₂ emitido por atividades humanas, com impacto direto sobre corais, peixes e cadeias alimentares marinhas.
Ondas de calor marinhas extremas foram registradas no Golfo do México, no mar do Caribe e na costa chilena. Semanas antes do relatório, o observatório Copernicus já documentava ondas de calor varrendo o Pacífico equatorial e alertava para um iminente recorde histórico de temperatura nos oceanos — exatamente o cenário que o documento da OMM agora confirma para a costa da América Latina.
O nível do mar também subiu mais rápido que a média global em trechos do Atlântico tropical e do Caribe, aumentando a pressão sobre comunidades costeiras.
O relatório é lançado sob uma sombra adicional: em abril, a OMM alertou que o El Niño deve se formar entre maio e julho de 2026, o que pode amplificar ainda mais as temperaturas que o documento agora aponta como as mais altas da região desde 1900.
