A diretoria colegiada da Anvisa decidiu nesta quinta-feira (15/5) manter parte das restrições à Ypê, após confirmar falhas sanitárias “graves e sistêmicas” na fábrica da empresa em Amparo, interior de São Paulo.
Permanecem suspensos a fabricação, comercialização, distribuição e o uso dos lotes afetados. O recolhimento dos produtos foi suspenso temporariamente — até que a empresa apresente e tenha aprovado pela Anvisa um plano estruturado de mitigação de riscos e rastreabilidade.
O que a inspeção encontrou na fábrica
A inspeção foi realizada entre 27 e 30 de abril, em conjunto pela Anvisa, o Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo e a Vigilância Sanitária municipal de Amparo. Os fiscais encontraram falhas múltiplas e recorrentes nas boas práticas de fabricação — um quadro que os diretores da agência descreveram como abrangente e documentado.
A própria empresa reconheceu a existência de mais de 100 lotes com resultados microbiológicos insatisfatórios. A fábrica trabalha atualmente para implementar 239 ações corretivas identificadas em inspeções realizadas ao longo de 2024 e 2025.
“A área técnica constatou que não se trata de desvios pontuais, mas de um comprometimento sistêmico dos processos produtivos”, afirmou a diretora Daniela Marreco durante o julgamento. A situação foi classificada como “risco sanitário alto” pela falha simultânea de múltiplas barreiras críticas de controle consideradas essenciais para garantir a segurança dos saneantes.
Pseudomonas aeruginosa confirmada em lotes de 2025
O diretor Daniel Pereira confirmou a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em diversos lotes da empresa ao longo de 2025. O microrganismo é reconhecido pela resistência antimicrobiana e pode provocar irritações na pele, dermatites, conjuntivites e infecções graves em pessoas imunossuprimidas.
A Anvisa havia declarado anteriormente que nenhuma bactéria específica havia sido identificada em 2026, mas sustentou que a decisão atual não se baseia apenas na presença de um microrganismo — e sim no conjunto de falhas sanitárias acumuladas ao longo dos últimos anos. “Não se trata de hipótese abstrata ou desconformidade meramente formal”, afirmou o diretor Thiago Campos, acrescentando que a agência não precisa aguardar confirmação absoluta de dano para atuar preventivamente.
Os produtos afetados são lotes de detergentes lava-louças, lava-roupas líquidos e desinfetantes da Ypê cuja numeração termina em 1. A ordem de suspensão havia sido emitida em 7 de maio, após inspeção identificar falhas graves nas Boas Práticas de Fabricação — medida que a empresa classificou como arbitrária e desproporcional e contra a qual prometeu recorrer.
Política, Unilever e a posição da Ypê
O caso rapidamente extrapolou o debate sanitário. Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro acusaram o governo Lula de perseguição à Ypê após registros mostrarem que membros da família controladora da Química Amparo doaram R$ 1 milhão à campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral.
Diretores da Anvisa responderam diretamente durante a sessão. “Instaurou-se uma discussão polarizada que não reflete a motivação dessa agência”, disse Daniela Marreco. “Não pautamos e nunca pautaremos em critérios políticos, mas sim na responsabilidade que temos com a sociedade”, acrescentou Daniel Pereira.
A agência confirmou ter recebido denúncias da Unilever contra a Química Amparo — dona da Ypê — em outubro de 2025 e março de 2026, via sistema Fala BR. A Anvisa ressaltou que a Unilever não solicitou anonimato e que denúncias de empresas, especialistas e consumidores integram o funcionamento regular da vigilância sanitária — e que a inspeção de abril já estava previamente programada, independentemente das representações.
A Ypê sustenta que seus produtos são seguros e afirma colaborar com as autoridades. Antes mesmo do julgamento, a empresa havia tomado a decisão inusitada de manter a fábrica de líquidos paralisada voluntariamente, mesmo após obter efeito suspensivo ao recorrer da ordem da Anvisa — medida justificada como forma de acelerar a implementação das ações corretivas exigidas.
Dois dias antes do julgamento, a Ypê havia formalizado o recurso, negado qualquer risco à saúde dos consumidores e prometido reverter a decisão no menor prazo possível. Com a confirmação das restrições nesta quinta, a empresa deverá apresentar à Anvisa um plano estruturado de mitigação antes de retomar as operações.