A Unilever, fabricante de Omo e Cif, foi quem primeiro alertou a Anvisa e a Senacon sobre contaminação microbiológica em produtos da Ypê — meses antes de a agência determinar a suspensão da linha líquida da Química Amparo.
A empresa protocolou a primeira denúncia em outubro de 2025, apontando a bactéria Pseudomonas aeruginosa em quatro lotes de Tixan Ypê Express. Em março de 2026, uma segunda denúncia ampliou o alerta para mais 14 lotes de produtos distintos.
Os documentos foram publicados pela Folha de S.Paulo e confirmados pelo g1 com acesso aos registros enviados pela multinacional às autoridades reguladoras.
Primeira denúncia: quatro lotes com desvio microbiológico
Nos documentos de outubro de 2025, a Unilever afirma que análises internas e testes conduzidos pelo laboratório Charles River identificaram Pseudomonas aeruginosa em quatro lotes das versões “Cuida das roupas” e “Combate mau odor” do Tixan Ypê Express, todos com validade até junho de 2027.
A denúncia descreve “identificação genética perfeita” da bactéria — sem distância genética entre o DNA das amostras e a cepa de referência do laboratório, descrito pela Unilever como detentor de “um dos maiores bancos de dados genéticos do mundo”. A empresa afirmou que os produtos apresentavam “desvio microbiológico relevante” e citou “iminente risco à saúde e segurança dos consumidores”.
Segundo os documentos, a descoberta foi motivada por indícios de um suposto “recolhimento silencioso” de Tixan Ypê Express no mercado. O episódio tem raízes em novembro de 2025, quando a própria Química Amparo identificou a bactéria e fez um recolhimento voluntário cautelar — ação que a empresa nunca classificou publicamente como problema grave.
Segunda denúncia: 14 novos lotes e outras bactérias
Em março de 2026, a Unilever voltou às autoridades com laudos do laboratório Eurofins apontando contaminação em 14 lotes adicionais. O leque de produtos atingidos se ampliou: Tixan Ypê Primavera, Tixan Ypê Maciez, Tixan Ypê Express, Ypê Power Act e o detergente Ypê Lava-Louças Neutro.
Todos os lotes apresentaram Pseudomonas aeruginosa. Em sete deles, os laudos identificaram também traços de Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter baumannii e outras espécies do gênero Pseudomonas — microrganismos que, segundo a denúncia, igualmente representam risco à saúde humana.
Com base nos laudos, a Unilever pediu às autoridades a ampliação do recall de produtos Ypê e a abertura de processo administrativo para investigar a conduta da Química Amparo.
Após as duas denúncias, a Anvisa realizou inspeções na fábrica da Química Amparo, em Amparo (SP). Em maio de 2026, a agência determinou a interrupção da fabricação e comercialização de toda a linha de produtos líquidos do complexo industrial — incluindo detergentes, lava-roupas e desinfetantes.
O papel da Unilever no episódio levanta questões sobre os limites entre proteção ao consumidor e disputa comercial. A empresa é concorrente direta da Química Amparo no mercado de produtos de limpeza, e a denúncia de um rival ao órgão regulador, embora legalmente prevista, é uma estratégia incomum no setor.
Nem a Unilever nem a Anvisa responderam aos pedidos de posicionamento até o fechamento da reportagem original, publicada em 13 de maio de 2026.
