A divulgação de um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chama o banqueiro Daniel Vorcaro de “irmão” colocou a CPMI do Banco Master de volta no centro do Congresso.
Nas gravações, reveladas pelo Intercept Brasil na quarta-feira (13), Flávio cobra repasses de R$ 134 milhões para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O episódio acelerou a pressão pela comissão — ironicamente liderada pelo próprio senador exposto, ao lado de parlamentares governistas que até então resistiam à investigação.
A instalação da CPMI, porém, continua travada: o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), se recusa a ler o requerimento, mesmo com assinaturas suficientes para abertura automática.
O áudio que reacendeu o debate
No áudio, Flávio chama Vorcaro de “irmão” e menciona o risco de “dar calote” em atores americanos caso os repasses de R$ 134 milhões para o filme sobre Jair Bolsonaro não fossem honrados. Vorcaro, dono do Banco Master, está preso em Brasília acusado de liderar um esquema de fraudes financeiras que pode chegar a R$ 12 bilhões, segundo a Polícia Federal. A TV Globo confirmou o conteúdo da reportagem com investigadores e pessoas próximas ao caso.
A regra que Alcolumbre ignorou
O regimento do Congresso é claro: a criação de uma CPMI é automática quando o requerimento reúne assinaturas suficientes — cabe ao presidente apenas lê-lo em sessão conjunta. O mínimo exigido é 171 deputados e 27 senadores.
O requerimento foi depositado em fevereiro com 280 assinaturas — 238 de deputados e 42 de senadores —, folga considerável acima do mínimo constitucional. Ainda assim, Alcolumbre optou por não lê-lo na última sessão conjunta, realizada há duas semanas.
A decisão abriu um precedente delicado: foi a mesma regra que a oposição usou no ano passado para instalar a CPMI do INSS logo na primeira sessão subsequente ao protocolo do requerimento.
Governistas alegaram, durante a sessão, que Alcolumbre negociou com a oposição a derrubada dos vetos do projeto da dosimetria — legislação que pode reduzir as penas do ex-presidente Bolsonaro e dos condenados pelos ataques de 8 de Janeiro de 2023. Em março, parlamentares recorreram ao STF para forçar a instalação da comissão. O tribunal rejeitou o pedido e reafirmou que a competência cabe exclusivamente ao Congresso Nacional.
Pressão de todos os lados — inclusive de quem tem o que esconder
Com o áudio nas mãos, Flávio Bolsonaro foi ao microfone cobrar a instalação imediata: “Mais do que nunca é fundamental a CPI do Banco Master já. Vamos separar os bandidos dos inocentes.” Seis dias antes, o senador usava a CPMI como munição eleitoral contra o PT, sem mencionar que aliados seus também figuravam nas investigações da Polícia Federal.
Do campo governista, o deputado Helder Salomão (PT-ES) denunciou um “acordão” para enterrar a comissão: “Fizeram um grande acordão para derrubar o Messias, para aprovar a dosimetria e, acima de tudo, para enterrar a CPMI do Banco Master.”
A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS), que apresentou questão de ordem diretamente a Alcolumbre na última sessão, foi categórica: “Não cabe a ele escolher ou não. Ela tem que ser instalada. Vamos enfrentar, lutar, porque queremos investigar, doa a quem doer.”
Da oposição, o líder Cabo Gilberto Silva (PL-PB) rebateu os governistas que agora cobram a comissão: “Conseguimos todas as assinaturas, e ninguém da base do governo queria assinar. Agora, estufam o peito porque querem inverter a narrativa.”
