Os chanceleres do BRICS se reúnem nesta quinta-feira (14) em Nova Délhi numa cúpula dominada por dois temas que se retroalimentam: a guerra no Oriente Médio e a crise global do petróleo.
Participam do encontro os ministros de Rússia, Irã, Brasil, China, Índia e África do Sul — incluindo o chanceler russo Sergei Lavrov, o iraniano Abbas Araghchi e o brasileiro Mauro Vieira.
O pano de fundo é o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo mundial, em meio ao conflito entre Israel, Estados Unidos e Irã.
Papel ‘construtivo’ em xeque
Antes das reuniões fechadas, o ministro indiano Subrahmanyam Jaishankar afirmou que o momento é de “considerável transformação” — com conflitos, incertezas econômicas e disputas em comércio, tecnologia e clima moldando a ordem global. Para o anfitrião, há uma expectativa crescente de que o bloco exerça um papel “construtivo e estabilizador” entre países emergentes e em desenvolvimento.
A crise que pauta o encontro é a mesma que levou a Agência Internacional de Energia a declarar, no fim de abril, que o mundo atravessa a maior crise energética de sua história, com o barril de Brent chegando a US$ 126 após o fechamento do Estreito de Ormuz.
Expansão que complica o consenso
Criado em 2009 por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o BRICS foi ampliado nos últimos anos para incluir Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A expansão trouxe mais peso econômico ao bloco, mas também aprofundou contradições internas.
Irã e Arábia Saudita — ambos agora membros — estão em lados opostos do conflito regional. A presença simultânea dos dois países torna qualquer declaração conjunta sobre a guerra uma negociação de alto risco diplomático.
A volatilidade que domina a pauta do BRICS ficou evidente há apenas oito dias, quando o petróleo despencou mais de 10% com rumores de acordo entre Washington e Teerã — oscilação que não se converteu em estabilidade duradoura.
A Índia, país-sede da reunião, é um dos mais expostos à crise: obtém quase metade de seu petróleo bruto pelo Estreito de Ormuz e depende da mesma rota para importar fertilizantes. O mesmo Estreito já derrubou os mercados em abril, quando o impasse entre EUA e Irã fez o barril disparar 7% em um único fim de semana.
Diante das divisões internas, diplomatas avaliam que a reunião pode terminar sem declaração conjunta — o que sinalizaria não apenas a dificuldade de consenso, mas o próprio limite do bloco como fórum de articulação geopolítica em tempos de crise.
