A indústria argentina de autopeças sangra sob as reformas econômicas de Javier Milei. A abertura comercial e o câmbio valorizado facilitaram a entrada massiva de peças importadas — principalmente da China —, deixando fabricantes locais sem condição de competir em preço.
As importações do setor subiram 11,6% em 2025, chegando a US$ 10,32 bilhões. Só as vindas da China cresceram 80,9%, totalizando US$ 1,46 bilhão, segundo a AFAC. A produção local de autopeças recuou 22,5% nos dois primeiros meses de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior.
Fábrica familiar vira símbolo da crise
A Suspenmec, fabricante de componentes para sistemas de suspensão nos arredores de Buenos Aires, produz cerca de 600 tipos de peças e viu suas vendas despencar 30% neste ano. A empresa opera abaixo da capacidade instalada, incapaz de absorver o choque de concorrentes importados com preços menores.
O caso não é isolado. Multinacionais como a sueca SKF e a norte-americana Dana fecharam unidades na Argentina. A produção de veículos, que atingiu 490 mil unidades em 2025, caiu 19% no primeiro trimestre de 2026 frente ao mesmo período do ano anterior.
O setor perdeu cerca de 5 mil postos de trabalho em 2025 — 10% de toda a força de trabalho do segmento —, segundo a AFAC. Analistas alertam que o número real seria ainda maior sem a migração de demitidos para a informalidade, inclusive em aplicativos de transporte.
Abertura acelerada e acerto de contas com o FMI
A política de câmbio apreciado e a redução de barreiras às importações fazem parte de um pacote mais amplo negociado com o Fundo Monetário Internacional. O acordo de US$ 20 bilhões firmado com o FMI incluiu como meta a flexibilização cambial que barateou os importados e pressionou os produtores locais.
O Brasil segue sendo o principal fornecedor de autopeças para a Argentina, mas também sente o baque. Nos primeiros quatro meses de 2026, as exportações de veículos do Brasil para a Argentina caíram quase 30%, enquanto montadoras chinesas avançam sobre o espaço deixado pelos fornecedores regionais.
Em resposta à pressão das importações chinesas, Brasil e Argentina assinaram em abril a Declaração de Buenos Aires, um pacto automotivo para fortalecer a competitividade regional e reduzir a vulnerabilidade dos dois países diante da expansão chinesa no setor.
O economista Andres Civetta, da consultoria Abeceb, vê uma saída pela via exportadora: a Argentina poderia enviar cerca de 400 mil veículos comerciais leves por ano — acima dos 280 mil exportados em 2025 —, com foco no Brasil e em outros mercados latino-americanos.
Desgaste político às vésperas das eleições
A crise industrial reverbera nas urnas. A aprovação de Milei caiu para 36% — quase seis pontos percentuais abaixo do registrado em março —, segundo levantamento da Giacobbe & Associates. O índice de confiança no governo, medido pela Universidade Torcuato Di Tella em escala de zero a 5, recuou para 2 pontos em abril, queda de 12% frente ao mês anterior.
O cenário aprofunda as contradições do modelo. O superávit comercial chegou a US$ 2,5 bilhões em março, mas 24.180 empresas — 5% do total em operação — fecharam entre novembro de 2023 e janeiro de 2026, conforme a consultoria Fundar. A atividade econômica recuou 2,1% em fevereiro na comparação anual; a indústria de transformação, 8,7%.
O desemprego subiu de 6,4% para 7,5% no quarto trimestre de 2025. Setores favorecidos pelo modelo — mineração, agropecuária e pesca — cresceram entre 8% e 15%, mas geram menos empregos e arrecadação que a indústria voltada ao mercado interno, o que pode comprometer o superávit fiscal defendido por Milei.
