Saúde

Cinco anos depois, lei do teste do pezinho ampliado ainda não saiu do papel

Só três estados detectam AME na triagem neonatal; ausência de prazos na lei federal trava expansão pelo SUS
Logotipo do SUS ilustrando o atraso na implementação do teste do pezinho ampliado AME na saúde pública

Uma lei sancionada há cinco anos prometia transformar o rastreamento neonatal no Brasil — e ainda não cumpriu.

A Lei nº 14.154/2021 expandiu, no papel, o teste do pezinho de 6 para mais de 50 doenças no SUS. Na prática, apenas Distrito Federal, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul conseguem hoje detectar a Atrofia Muscular Espinhal (AME) na triagem, segundo o INAME.

A doença é grave e progressiva. Sem diagnóstico precoce, pode matar nos primeiros anos de vida. Com tratamento a tempo, a sobrevida chega a quase 100%.

A AME destrói neurônios motores, provocando fraqueza muscular severa e atrofia progressiva. Quanto mais cedo os sintomas aparecem, mais grave é o quadro — e mais urgente a intervenção.

O neurologista Edmar Zanoteli, da USP, explica o mecanismo com precisão: quando a medicação é iniciada antes do surgimento de sintomas, os neurônios ainda estão preservados e a criança pode evoluir sem qualquer manifestação clínica.

“A partir do momento que eu dou a medicação, a morte do neurônio para. Quando a criança chega já muito comprometida, eu não recupero mais aqueles neurônios que se perderam. Mas se ela chegar muito cedo — até sem sintomas — eu dou o tratamento e ela pode evoluir sem doença nenhuma”, afirma Zanoteli.

Uma lei sem prazo, um problema sem solução

A Lei 14.154/2021 alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente para ampliar o Programa Nacional de Triagem Neonatal. A expansão foi dividida em cinco etapas e deveria ter começado um ano após a sanção. O problema: a legislação não fixou prazo algum para que estados e municípios cumprissem a medida.

Resultado: os três estados que realizam o rastreamento da AME o fazem por iniciativa própria — não por cumprimento da lei federal, destaca o INAME. O Brasil tem 2.074 pessoas vivendo com a doença. A forma grave representa cerca de 300 novos casos por ano.

Para a presidente do INAME, Diovana Loriato, a janela terapêutica é decisiva: “Quando a AME é identificada logo após o nascimento, é possível iniciar o tratamento dentro da janela adequada, eliminando ou reduzindo consideravelmente os sintomas. Isso evita óbitos e melhora a qualidade de vida dos pacientes e de suas famílias.”

Custo econômico de cada diagnóstico atrasado

O impacto vai além da clínica. Um estudo do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP aponta que o diagnóstico precoce da AME reduz internações, cirurgias e a necessidade de suporte contínuo com respiradores — equipamentos que encarecem brutalmente o tratamento tardio.

Zanoteli reforça que a detecção precoce pode evitar que a criança se torne dependente de ventilação mecânica, o que altera radicalmente tanto o custo para o governo quanto a sobrecarga sobre as famílias, que precisam de um cuidador em tempo integral.

Enquanto o Brasil patina na implementação, o teste do pezinho ampliado para mais de 50 doenças já é realidade há cerca de uma década na Europa, Ásia, Estados Unidos, Canadá — e até na Ucrânia, mesmo em guerra. A disparidade reflete um padrão estrutural bem documentado no sistema público: como mostrou estudo publicado em 2026, pacientes do Norte percorrem até seis vezes mais que os do Sul para acessar radioterapia no SUS — evidência de que o CEP ainda determina o que o sistema público oferece a cada brasileiro.

Sem prazo definido para o cumprimento integral da lei, o acesso ao rastreamento ampliado de doenças raras segue determinado pelo estado em que a criança nasce — não pelo direito garantido em lei.

escrito com o apoio da inteligência artificial
este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
todos os fatos foram verificados com rigor.
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