O agricultor Everson Tagliari, do Rio Grande do Sul, está diante de uma escolha impossível: jogar 50 toneladas de alho no lixo ou vender com prejuízo. O responsável, segundo produtores do setor, é o alho importado — principalmente da Argentina e da China — que chega ao mercado brasileiro a preços que inviabilizam a produção local.
O Brasil consome cerca de 320 mil toneladas de alho por ano, mas produz apenas 170 mil toneladas. Para cobrir o déficit, o país importa 60% do volume consumido, tornando o mercado interno dependente de preços ditados pelo exterior.
O Rio Grande do Sul concentra parte importante da produção nacional de alho, ao lado do Centro-Oeste. Na região gaúcha, o principal vilão apontado pelos produtores é o alho argentino. Franchielle Motter, presidente da Associação dos Produtores de Alho do estado, afirma que o prejuízo chega a R$ 5 por quilo vendido — uma perda que torna a atividade inviável para qualquer agricultor.
A situação se repete em outras regiões produtoras. Sem conseguir cobrir os custos de cultivo com o preço pago pelo mercado, muitos agricultores preferem simplesmente não vender a safra. O resultado é o desperdício de toneladas de alho colhido com trabalho e investimento.
Concorrência desleal e subsídios chineses
No caso do produto chinês, a disputa vai além do preço. Letícia Barony, assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), classifica a concorrência como desleal: “Subsídios em armazenagem, em estrutura de comercialização, estruturas produtivas fazem com que o alho chinês chegue ao Brasil e cause um dano à indústria nacional”, afirma.
O governo federal chegou a firmar, no ano passado, um acordo com três exportadores chineses para estabelecer um preço mínimo para o produto. A medida, no entanto, não foi suficiente para estancar o problema enfrentado pelos produtores nacionais.
Diante do cenário, a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa) escalou a pressão institucional. A entidade afirma ter enviado 35 ofícios a órgãos do governo federal denunciando concorrência desleal — sem que nenhuma resposta tenha chegado até agora.
O silêncio do governo contrasta com a urgência do setor. Enquanto produtores consideram descartar toneladas de alho, a ausência de política pública efetiva expõe a fragilidade da cadeia produtiva nacional diante da competição subsidiada do exterior.
A crise do alho revela uma contradição estrutural: o Brasil não tem capacidade de abastecer sua própria demanda e, ao mesmo tempo, não consegue proteger os agricultores que tentam reduzir essa dependência. Enquanto a China impõe cotas para limitar a entrada de carne bovina brasileira e proteger sua produção doméstica, o alho chinês — beneficiado por subsídios estatais — segue inundando o mercado brasileiro. Veja como as duas faces da relação comercial do Brasil com Pequim impactam o agronegócio nacional.
Sem uma resposta concreta do governo federal, o risco é o aprofundamento da dependência de importados — com preços e volumes definidos por outros países, e produtores nacionais cada vez mais pressionados a abandonar a atividade.
