O financista Kevin Warsh vai ao Senado americano na terça-feira (21) com um recado cuidadosamente calibrado: está comprometido com a independência do Federal Reserve — mas apenas nas decisões de política monetária.
Ex-diretor do Fed e indicado por Donald Trump para substituir Jerome Powell, Warsh, de 56 anos, depõe diante do Comitê Bancário do Senado a partir das 11h (horário de Brasília). O conteúdo de sua fala foi obtido com antecedência pela Reuters.
Nos comentários preparados para a audiência, Warsh deixa claro onde traça a linha da autonomia institucional. A independência do Fed, segundo ele, não se estende a toda a gama de funções da instituição — e isso inclui gestão de recursos públicos, regulação bancária, supervisão financeira e questões ligadas às finanças internacionais.
“Estou igualmente comprometido em trabalhar com o governo e com o Congresso em questões não monetárias que fazem parte das atribuições do Fed”, afirmará ao comitê. Na prática, a formulação abre espaço para influência do Executivo Trump em áreas estratégicas do banco central sem formalmente romper com o princípio da autonomia.
Reforma e crítica ao status quo
Warsh também promete agitar a instituição por dentro. Para ele, a tendência de organizações grandes e complexas de preservar o status quo pode ser “prejudicial” em um cenário de rápidas transformações. “Em uma época que estará entre as mais importantes da história de nossa nação, acredito que um Federal Reserve voltado para a reforma pode fazer uma diferença real para o povo norte-americano”, disse.
O financista retoma críticas que vem fazendo ao Fed desde que deixou o cargo de diretor, em 2011. Ele defende que o banco central deve “permanecer em sua faixa” e evitar avançar sobre temas que considera de política fiscal ou social — uma referência direta a iniciativas como estudos sobre mudanças climáticas e a meta de pleno emprego “inclusivo” que o Fed adotou nos últimos anos. A própria instituição já reduziu significativamente o foco na agenda climática.
Warsh ainda vincula a credibilidade da independência ao desempenho: se o Fed não cumprir seu mandato de estabilidade de preços, argumenta, a própria autonomia fica fragilizada. “A inflação baixa é a armadura do Fed”, afirmou, alertando que o aumento dos preços — como o verificado nos últimos anos — corrói a confiança pública na governança econômica.
O debate sobre os limites da autonomia de bancos centrais está longe de ser exclusividade americana. Semanas antes da audiência de Warsh, o presidente do Banco Central brasileiro, Gabriel Galípolo, defendeu que a autonomia do BC vai além do texto da lei e que o mandato da instituição “não está disponível para negociação” — num eco direto da tensão que o indicado de Trump agora tenta navegar em Washington. Leia mais: Galípolo defende autonomia do BC e eleva Focus à condição de bússola monetária.
O que está em jogo nos mercados
A confirmação de Warsh pelo Senado teria impacto direto sobre o dólar e as bolsas globais. O Fed é o principal definidor do ciclo de juros que baliza ativos do mundo inteiro — e qualquer sinal de que a política monetária americana pode ser influenciada pela Casa Branca tende a gerar volatilidade imediata.
Trump vem pressionando publicamente Jerome Powell para cortar juros, o que Powell tem resistido. A escolha de Warsh é lida por analistas como uma tentativa de garantir um chair mais alinhado ao governo — ainda que Warsh, em seus comentários preparados, faça questão de distanciar-se dessa imagem. A audiência começa às 10h no horário local de Washington, 11h em Brasília.
