A carga tributária que chega a 32% do PIB no Brasil e a insatisfação com o governo Lula empurram uma onda crescente de brasileiros para o Paraguai — país vizinho com impostos três vezes menores e uma tradição de governos conservadores que ressoa com quem cruza a fronteira.
Em 2025, o Paraguai emitiu 23,5 mil autorizações de residência para brasileiros, recorde histórico e volume mais de cinco vezes superior ao dos argentinos, o segundo colocado. Nos três primeiros meses de 2026, já foram aprovadas 9,2 mil novas autorizações.
A fila que dobra a esquina em Ciudad del Este
Centenas de brasileiros acamparam sob o sol forte de Ciudad del Este, na fronteira com o Paraná, para garantir atendimento nos mutirões itinerantes criados pelo governo do presidente Santiago Peña — chamados de Migramovil. O segundo evento do ano na cidade somou cerca de 4 mil atendimentos, e mais 19 edições estão previstas em todo o país até o fim de 2026.
Os perfis são variados: donos de salão de cabeleireiro de Goiás, empresários do setor metalúrgico do Paraná, professoras aposentadas do Rio de Janeiro, casais com filhos pequenos que defendem o homeschooling. Em comum, a percepção de que o Brasil já não corresponde às suas expectativas econômicas e ideológicas.
A carga tributária é o argumento mais citado. O Paraguai opera com o chamado sistema 10-10-10: alíquota única de 10% para o imposto sobre valor agregado (IVA), o imposto de renda de pessoa física e o imposto de renda das empresas. A carga total gira em torno de 14,5% do PIB — contra 32% no Brasil, onde o futuro IVA, aprovado na reforma tributária de 2023, deve ter alíquota entre 25% e 28% quando entrar em vigor completamente, em 2033.
Motivação ideológica explícita
A decisão raramente é só financeira. “Nós, da direita, nos sentimos as pessoas mais oprimidas. A gente não tem liberdade”, disse uma professora aposentada que percorreu 1,5 mil km de ônibus do Rio de Janeiro até Ciudad del Este. Empresários citam a possibilidade de reeleição de Lula em 2027 como fator que os faz desistir de voltar ao Brasil, mesmo que a situação econômica melhore.
O atual presidente paraguaio, Santiago Peña, é o nono governante de direita entre os dez que comandaram o país desde a redemocratização, em 1989. Seu governo criou os mutirões migratórios e anuncia ativamente a chegada de imigrantes como sinal de que o país vai bem. Em março, Peña sancionou um acordo que autoriza a presença de militares e empresas americanas no Paraguai para combater o crime organizado — alinhamento ao governo Trump que ecoa entre os brasileiros que emigram.
Enquanto brasileiros fazem fila em Ciudad del Este citando impostos altos como razão para emigrar, o governo Lula anunciou um pacote de mais de R$ 200 bilhões em estímulos — com renúncia fiscal estimada em até R$ 40 bilhões —, alimentando o debate sobre a sustentabilidade do modelo tributário brasileiro. Veja o pacote de estímulos anunciado por Lula e o impacto fiscal previsto.
O que o Paraguai não entrega
O economista Alexandre da Costa lembra que carga tributária menor significa menos arrecadação — e, portanto, menos serviços públicos. O sistema de saúde paraguaio é fragmentado: apesar de haver gratuidade por lei, quem é atendido frequentemente precisa pagar pelos insumos, de remédio à seringa. Muitos dos brasileiros que se mudam ainda recorrem ao SUS em Foz do Iguaçu quando precisam de atendimento de maior complexidade, segundo Costa.
A taxa de informalidade no emprego chega a 62,5% no Paraguai — quase o dobro dos 37,5% brasileiros. O país não tem FGTS nem seguro-desemprego, e as férias começam em apenas 12 dias úteis por ano. Apesar do crescimento de cerca de 4% ao ano nos últimos três anos, o Paraguai ainda registra um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano da região, com PIB cerca de 50 vezes menor que o brasileiro.
O contraste ideológico que atrai brasileiros ao Paraguai tem paralelo regional: o Banco Mundial recentemente destacou a Argentina e apontou perda de dinamismo no Brasil, colocando reformas liberais e incerteza fiscal em polos opostos. Leia a análise do Banco Mundial sobre Argentina e Brasil.
Permanência ainda incerta
Os dados paraguaios revelam uma contradição: em 2025, apenas 19% dos pedidos de residência de brasileiros eram do tipo permanente — em 2020, esse índice era de 68%. Isso sugere que parte dos imigrantes testa o país sem necessariamente criar raízes, favorecida pela proximidade geográfica com o Brasil.
A última estimativa do Itamaraty, de 2023, aponta que 263 mil brasileiros viviam no Paraguai — terceira maior comunidade brasileira no exterior, depois de EUA e Portugal. Se o volume de permanências vai acompanhar o recorde de entradas em 2026, os dados dos próximos anos responderão.
