O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, disse nesta terça-feira (14) que o papa Leão XIV deveria “ter cuidado ao falar sobre questões de teologia”. A declaração foi feita em um evento do Turning Point USA e provocou confronto imediato com um manifestante na plateia.
Vance respondeu ao protesto defendendo os esforços do governo para garantir um cessar-fogo em Gaza — enquanto o próprio papa, no mesmo dia, publicava uma carta sobre os limites do poder político.
Para sustentar a crítica ao pontífice, Vance recorreu a perguntas retóricas sobre a Segunda Guerra Mundial: “Como você pode dizer que Deus nunca está do lado daqueles que empunham a espada? Deus estava do lado dos americanos que libertaram a França dos nazistas? Deus estava do lado dos americanos que libertaram os campos do Holocausto?”
A provocação tem raiz em uma disputa teológica bem definida. Para Leão XIV, “Deus não abençoa nenhum conflito” — exatamente a premissa que o vice-presidente contestou ao invocar a libertação da Europa no século XX como argumento teológico.
Em meio ao discurso, uma pessoa na plateia interrompeu Vance gritando que “Jesus Cristo não apoia o genocídio”. O vice-presidente respondeu defendendo a atuação do governo Trump pelos esforços de cessar-fogo em Gaza como prova de que a administração busca o fim do conflito.
As falas ocorrem enquanto o papa intensificou, nas últimas semanas, suas críticas à guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã — e, na segunda-feira (13), declarou à Reuters que pretende continuar fazendo isso, independentemente das reações de Washington.
A advertência de Vance ao papa amplia um padrão de confronto que já vinha se desenhando entre a Casa Branca e o Vaticano. Trump havia chamado o pontífice de “terrível” e, antes disso, de “fraco” — ofensivas que levaram a CNBB a sair publicamente em defesa de Leão XIV.
No mesmo dia em que o vice-presidente fazia sua advertência em Washington, o papa publicava uma carta com uma resposta implícita ao clima político americano. Leão XIV escreveu que o poder não deve ser visto como um fim em si mesmo, “mas como um meio orientado ao bem comum” — linguagem que contrasta diretamente com a retórica de força projetada pelo governo Trump.
O episódio marca um raro momento em que um vice-presidente americano questiona abertamente a autoridade teológica do líder da Igreja Católica — instituição com 1,4 bilhão de fiéis no mundo, incluindo dezenas de milhões de eleitores nos Estados Unidos.
