Um oficial da Marinha do Brasil está no centro da zona de conflito mais tensa do Oriente Médio. O capitão-tenente Hamilton de Andrade dos Santos, 34 anos, serve no quartel-general da Unifil — a força de paz da ONU no sul do Líbano — desde setembro de 2025, enquanto Israel avança militarmente pelo território libanês.
A missão que ele integra perdeu três soldados indonésios em menos de 24 horas, nos dias 29 e 30 de março. Ele não os conhecia pessoalmente, mas afirma que a perda “afeta toda a missão”.
São 10 militares brasileiros no total. Santos é um dos dois sediados em Naqoura. Juntos, eles mantêm um ritual diário: almoçar juntos.
Três mortes em 24 horas
Nos dias 29 e 30 de março, a Unifil sofreu o mais duro baque desde o início da invasão israelense: três integrantes indonésios da missão morreram em incidentes separados próximos à Linha Azul — o limite de cessar-fogo estabelecido em 2024 entre o Hezbollah e as forças israelenses.
Conforme apurou a BBC News Brasil junto ao escritório de comunicação da Unifil, o primeiro soldado morreu na noite de domingo devido à explosão de um projétil israelense perto da vila de Adchit al-Qusair. Os outros dois foram vitimados na segunda-feira por um dispositivo explosivo improvisado “provavelmente colocado pelo Hezbollah” nas imediações de Bani Hayyan.
“Este é o segundo incidente fatal nas últimas 24 horas. Reiteramos que ninguém deveria morrer servindo à causa da paz”, declarou a missão após o segundo ataque.
Santos trabalhava no quartel-general enquanto os soldados mortos serviam nos setores operacionais. Ainda assim, afirma que o impacto é coletivo. “Todos nós sabemos o que significa servir aqui, num ambiente complexo e de risco”, diz.
Maior onda de ataques desde o início da invasão
Na quarta-feira (8/4), Israel desencadeou a maior onda de ataques aéreos ao Líbano desde o início da invasão, atingindo mais de cem alvos e deixando 112 mortos e 837 feridos em um único dia, segundo o Ministério da Saúde libanês. O total de mortes no país desde o início dos confrontos já supera 1,4 mil.
Os ataques ocorreram horas depois de o governo israelense declarar que o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã excluía o Líbano. Na mesma quarta-feira, o governo brasileiro cobrava publicamente que a trégua fosse estendida ao país — onde dois de seus militares seguem servindo na Unifil.
Diante da situação descrita pela própria missão como “extremamente tensa e volátil”, a Unifil alterou sua forma de operar. “Já não realizamos os mesmos tipos de patrulhas de monitoramento que fazíamos no passado”, informou o quartel-general. Os efetivos passaram a permanecer mais próximos das bases para garantir segurança e impedir que as áreas adjacentes sejam usadas por qualquer das partes para lançar ataques.
Santos desembarcou no Líbano sem experiência prévia no país e, em pouco tempo, descobriu que conhecê-lo seria privilégio raro. “A maior parte do meu tempo é dedicada ao trabalho, numa rotina bastante intensa e praticamente sem finais de semana”, conta.
Para atravessar os momentos mais pesados, o militar recorre à disciplina da carreira. “O que existe, no meu caso, é a tentativa de manter disciplina mental, foco na missão e seriedade diante da pressão.” O suporte dos colegas completa o repertório: “O apoio mútuo, a confiança profissional e até a capacidade de preservar alguma leveza, quando o contexto permite, ajudam a enfrentar a tensão sem perder a seriedade.”
A invasão israelense que colocou a Unifil em alerta máximo teve início em 2 de março, com bombardeios que provocaram fuga em massa de Beirute e mais de 100 mortos nos primeiros dias — e desde então não cedeu.
Em setembro, Santos completará o ciclo de um ano na missão e retornará ao Brasil. “Ainda não pensei em algo muito específico para o momento da chegada, mas acredito que a primeira necessidade será descansar um pouco e arejar a cabeça depois de um período tão intenso”, revela.
A experiência que ele acumula se insere em uma história mais longa do Brasil nas missões de paz. Em janeiro de 2027, o país completará 70 anos do embarque do primeiro Batalhão Suez — a força que serviu no Deserto do Sinai até ser expulsa pelas forças egípcias às vésperas da Guerra dos Seis Dias, em 1967. Para Santos, a missão transcende o serviço em campo: “Uma missão de paz não termina quando um militar volta para casa. Ela permanece como parte da sua trajetória e da sua identidade.”
