O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quarta-feira (8) que nenhuma auditoria ou sindicância interna da autoridade monetária aponta culpa de Roberto Campos Neto no tratamento do caso do Banco Master.
A declaração foi feita durante depoimento na CPI do Crime Organizado, onde Galípolo foi questionado pelos senadores sobre a atuação do ex-presidente do BC em relação ao banco de Daniel Vorcaro.
A afirmação de Galípolo contraria diretamente a narrativa que Lula vinha construindo desde março, quando chamou o escândalo do Master de “ovo da serpente” do governo Bolsonaro e da gestão Campos Neto no BC — narrativa que o presidente reforçou em discursos e entrevistas nas semanas seguintes.
Campos Neto presidiu o Banco Central entre 2019 e 2024. Os dois últimos anos de seu mandato coincidiram com o terceiro governo Lula, iniciado em 2023 — período em que o BC, por ser autônomo, operava de forma independente do Executivo.
O que apurou a sindicância interna
A sindicância interna do BC — encerrada em março e encaminhada à CGU — identificou irregularidades de dois ex-servidores da área de fiscalização que teriam agido em favor de Vorcaro, sem chegar a envolver Campos Neto nas conclusões.
O processo, portanto, localizou condutas irregulares em nível técnico, mas não responsabilizou a cúpula da instituição por omissão ou por decisões de gestão no acompanhamento do caso.
O depoimento de Galípolo ocorreu em sessão marcada também pela terceira ausência consecutiva de Roberto Campos Neto — formalmente convocado pelos senadores, o ex-presidente do BC voltou a não comparecer à CPI.
A narrativa do Palácio do Planalto sobre o caso Master tem valor político evidente: ao associar o escândalo à gestão anterior, o governo Lula tenta se distanciar das responsabilidades pela crise no banco de Vorcaro e pelos efeitos sobre cotistas cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos.
A declaração de Galípolo, no entanto, coloca o Banco Central institucionalmente em rota de colisão com o discurso presidencial — uma tensão incomum entre o chefe de Estado e o presidente de uma autoridade que ele mesmo indicou ao cargo em 2024.
