O Banco Central sinalizou nesta quarta-feira (8) que a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã pode reduzir o espaço para novos cortes na Selic. A avaliação é do diretor de Política Monetária, Nilton David.
Segundo o diretor, os juros ainda estão em patamar alto o suficiente para comportar algum afrouxamento — mas a pressão inflacionária vinda do conflito pode mudar esse cálculo à frente.
Juros com “gordura”, mas janela pode fechar
David explicou que a Selic tem hoje mais “gordura” do que havia há seis meses — referência ao espaço entre o nível atual dos juros e o patamar mínimo compatível com o controle da inflação. Esse colchão permite cortes sem que a política monetária perca seu caráter restritivo.
O risco está na transmissão do conflito para os preços. A alta nos preços de energia causada pela guerra pode alimentar a inflação global e, por tabela, a doméstica — fechando a janela para reduções futuras da Selic.
Em março, o Copom cortou a Selic de 15% para 14,75% ao ano pelo primeiro recuo desde 2024, mas evitou sinalizar os próximos passos e reforçou a necessidade de manter juros restritivos diante das incertezas geopolíticas — posição que David reiterou nesta quarta.
A lógica descrita pelo diretor já estava em movimento antes: quando o barril passou de US$ 72 para mais de US$ 100, o mercado foi forçado a rever sua aposta no Copom. A pressão de energia comprindo espaço para cortes não é hipótese — é processo em curso.
Mercado desconfia da disposição do BC de agir
David também reagiu à piora das previsões de mercado para a inflação de 2027 e 2028. Para o diretor, esse movimento reflete a percepção de que o Banco Central poderia não agir com firmeza diante de novas altas de preços — “o que é um equívoco”, afirmou.
A declaração foi uma resposta direta à deterioração das expectativas de longo prazo, sinal de que a credibilidade da política monetária está sendo testada pelo mercado financeiro.
Real recua, mas BC minimiza comparação com outros países
David abordou o avanço do dólar frente ao real desde o início do conflito, no fim de fevereiro. Em sua avaliação, a desvalorização cambial “não foi tão diferente” do observado em outras economias emergentes no mesmo período.
O diretor reconheceu, porém, que o real tende a oscilar com maior intensidade do que outras moedas. Ele lembrou o episódio da virada de 2024 para 2025, quando o dólar à vista chegou a superar R$ 6,20 em meio à piora das expectativas inflacionárias e ao fortalecimento da moeda americana no exterior.
Desde o início dos conflitos, o dólar chegou a R$ 5,24 frente ao real — movimento que o diretor classificou como dentro do padrão global, mas com ressalva: o real historicamente amplifica os ciclos.
Para o BC, a volatilidade cambial dificulta o processo de convergência da inflação à meta. As intervenções da instituição no mercado de câmbio têm como objetivo conter a oscilação excessiva — não determinar o nível do câmbio. A distinção, segundo David, é central para entender o papel do Banco Central nesse cenário.
