Um documento interno do Banco Regional de Brasília (BRB) confirma que a equipe técnica da instituição já sabia, à época do anúncio da compra do Banco Master, que parte das carteiras de crédito consignado oferecidas por Daniel Vorcaro não tinha lastro verificável.
Os registros foram elaborados por um grupo de trabalho criado pelo próprio BRB. Dois documentos foram produzidos — um em abril e outro em maio de 2025 — e tiveram seu conteúdo revelado pelo g1.
A análise conduzida pelo grupo cobriu 1,9 milhão de contratos adquiridos de 615 mil clientes distintos — o que representa, em média, três contratos de empréstimo por pessoa com o Banco Master.
Contratos sem averbação verificável
Em uma reunião realizada em abril de 2025 entre equipes dos dois bancos, técnicos do BRB já sinalizaram que diversas operações cedidas não tinham averbação verificável. Na prática, isso significa que o órgão público responsável pelo desconto direto no contracheque do servidor não tinha registro da operação — tornando inviável a execução do contrato.
O Master, segundo os documentos, mantinha o controle de todas as suas operações de crédito em planilhas eletrônicas, com dados incompletos e sem padronização. A precariedade dos registros dificultava a análise individual de cada operação repassada ao BRB.
Outras inconsistências identificadas
Os técnicos do BRB também apontaram inconsistências no cálculo dos valores a receber pelo banco e parcelas vencidas sem a devida atualização de juros e multa — falhas que comprometiam diretamente a precificação das carteiras adquiridas.
O conhecimento prévio das irregularidades agrava a situação do BRB, que já acumula um rombo estimado em R$ 5 bilhões após absorver mais de R$ 12 bilhões em carteiras do Master com indícios de fraude. A instituição pública enfrenta quatro riscos associados à herança deixada pelo Master, conforme análise publicada pelo Tropiquim.
A fabricação de carteiras de crédito fictícias pelo Master — esquema que a Polícia Federal avalia em cerca de R$ 12 bilhões — tem raízes justamente nas operações de consignado sem averbação verificável que o próprio BRB registrou internamente.
Uma auditoria contratada pela nova gestão do BRB e entregue à Polícia Federal identificou que o ex-presidente Paulo Henrique Costa centralizou as operações comerciais com o Master. O banco atualmente processa o ex-gestor por dívida de R$ 799 mil após investigação no STF — o mesmo processo que gerou as carteiras sem lastro agora documentadas.
O BRB foi procurado pelo g1 para comentar os documentos, mas não havia respondido até o fechamento da reportagem.
