Saúde

MS recebe 40 mil doses de vacina contra chikungunya em piloto do Ministério da Saúde

Surto em Dourados e Itaporã acumula 648 confirmados e quatro mortes, todas entre indígenas
Comunidade indígena vulnerável ao mosquito: vacinação chikungunya Mato Grosso do Sul salva vidas

Mato Grosso do Sul vai receber 40 mil doses da vacina contra chikungunya por meio de um projeto piloto do Ministério da Saúde, acionado após um surto com quatro mortes e centenas de casos nas cidades de Dourados e Itaporã, no sul do estado.

O boletim epidemiológico desta segunda-feira (23) registra 648 casos confirmados em Dourados, 1.426 notificações e 576 exames ainda em análise. Em Itaporã, apenas em março foram contabilizadas 100 notificações entre indígenas das aldeias Jaguapiru e Bororó.

As quatro mortes atingiram exclusivamente a população indígena. A vacina, aprovada pela Anvisa, será aplicada em dose única em adultos de 18 a 59 anos.

Surto avança das aldeias para áreas urbanas

Autoridades de saúde descrevem o cenário como preocupante, especialmente pela velocidade de disseminação nas aldeias indígenas e pela expansão para bairros urbanos. Em Itaporã, o Hospital Municipal registrou aumento crescente no atendimento à população indígena desde a segunda semana de fevereiro.

O secretário municipal de Saúde de Dourados, Márcio Figueiredo, confirmou mais de 250 casos na área urbana do município e alertou para tendência de alta nas próximas semanas. “Precisamos unir esforços para preparar os serviços de saúde e garantir atendimento a quem mais precisa”, declarou. A prefeitura não descarta instalar um hospital de campanha, e um decreto municipal já autoriza a captação de recursos federais para medidas emergenciais.

O diretor da Força Nacional do SUS, Rodrigo Stabeli, afirmou que a situação exige atenção em toda a região da Grande Dourados e que medidas simples de orientação podem reduzir a sobrecarga no sistema de saúde.

Força-tarefa mobiliza três esferas de governo

Uma força-tarefa com apoio federal, estadual e municipal foi ativada para conter o avanço da doença. As ações começaram nas aldeias, onde a incidência é mais elevada, e se expandiram para bairros urbanos como Jardim dos Estados, Novo Horizonte e a região do Jóquei Clube.

Entre as medidas adotadas estão as Estações Disseminadoras de Larvicida (EDLs), que atraem o mosquito Aedes aegypti e fazem com que ele mesmo leve o larvicida a outros criadouros, interrompendo a reprodução. Equipes de saúde também intensificaram visitas domiciliares, mutirões de limpeza e aplicação de inseticidas. Mais de 2,2 mil residências já foram visitadas em áreas indígenas com apoio de cerca de 100 agentes.

Vacina com até 100% de eficácia chega ao Brasil pela primeira vez

Desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica franco-austríaca Valneva, a vacina contra chikungunya é a primeira contra a doença registrada no mundo. Aprovada pela Anvisa em abril de 2025, utiliza tecnologia de vírus atenuado e induz produção de anticorpos com poucas reações adversas.

Os resultados do ensaio clínico de fase 3 realizado no Brasil apontam eficácia de 100% em adolescentes com infecção prévia, 98,8% em adolescentes sem contato anterior com o vírus e 98,5% em adultos e idosos.

A campanha em Dourados e Itaporã ainda depende da conclusão do treinamento das equipes de saúde, mas a expectativa é que comece nos próximos dias. A estratégia será monitorada para avaliar eficácia em condições reais e poderá ser ampliada para outras regiões do país.

O infectologista Rivaldo Venâncio alerta que a chikungunya tende a ser mais debilitante do que outras arboviroses: a intensidade das dores articulares faz com que pacientes busquem atendimento múltiplas vezes, sobrecarregando o sistema. Idosos e portadores de doenças crônicas estão entre os mais vulneráveis às formas graves. Para casos suspeitos, a recomendação é buscar uma unidade de saúde — o uso de paracetamol ou dipirona deve ser feito apenas com orientação médica.

O Instituto Butantan também entregou ao Brasil a primeira vacina nacional contra a dengue, outra doença transmitida pelo Aedes aegypti, consolidando seu papel central no desenvolvimento de imunizantes contra arboviroses no país.

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