O setor de seguros decidiu encarar de frente um risco que cresceu com a inteligência artificial: erros de decisão e as chamadas “alucinações” — quando sistemas de IA apresentam informações falsas com alto grau de confiança — agora têm cobertura específica em apólices dedicadas.
A mudança foi noticiada pela agência France Press nesta segunda-feira (16) e reflete uma virada no mercado securitário: empresas que desenvolvem ou usam IA autônoma já encontram produtos desenhados para seus riscos específicos, não mais dependentes de coberturas genéricas.
Segundo a consultoria Deloitte, esse mercado global pode movimentar até US$ 4,8 bilhões — cerca de R$ 25 bilhões — até 2032.
Da cobertura silenciosa às apólices sob medida
Por muito tempo, os riscos ligados à IA foram cobertos de forma indireta, embutidos em apólices tradicionais sem menção explícita — prática chamada de “cobertura silenciosa”. Análise publicada em 2025 pela corretora Willis Towers Watson comparou esse período ao início da criminalidade cibernética, quando os riscos ainda não tinham nome nem delimitação clara.
A virada ocorreu nos últimos meses. Segundo Jonathan Mitchell, da corretora Founder Shield, apólices padrão passaram a incluir cláusulas de “exclusão absoluta da IA”, retirando formalmente esse tipo de risco da cobertura convencional. A seguradora Chubb chegou a pedir autorização a reguladores dos Estados Unidos para excluir formalmente responsabilidades ligadas à IA de seus contratos.
Com o vácuo criado, cresceu a oferta de seguros específicos. O principal produto é o seguro de erros e omissões (E&O), tradicional em serviços profissionais e agora adaptado para falhas de IA. Em um caso citado por Phil Dawson, da Armilla, uma imobiliária contratou uma apólice específica para proteger seu agente de IA como se fosse um funcionário da empresa.
Avaliação rigorosa antes da cobertura
Antes de conceder uma apólice, seguradoras como a Armilla realizam testes para mapear vulnerabilidades dos modelos e analisam a gestão de riscos da empresa, incluindo adesão a normas nacionais e internacionais. O processo é mais criterioso do que nas apólices tradicionais, pois o comportamento de sistemas autônomos é mais difícil de prever e delimitar.
O mercado de seguros para IA não surgiu do nada: um estudo do Monte Sinai mostrou que o ChatGPT falhou em reconhecer emergências médicas reais em mais da metade dos casos analisados — exatamente o tipo de erro que as novas apólices buscam cobrir.
Exclusões e os limites do mercado
Mesmo com a expansão, algumas áreas seguem de fora. A Armilla não cobre aplicações relacionadas a diagnósticos médicos ou saúde mental. A Munich Re, por sua vez, exclui falhas decorrentes de condições excepcionais de mercado — como variações atípicas na avaliação de ativos financeiros ou obras de arte.
Os principais clientes dessas apólices são empresas de tecnologia e companhias dos setores de agricultura, indústria e energia, tanto as que desenvolvem quanto as que utilizam sistemas de IA. Para Michael von Gablenz, da Munich Re, o potencial do mercado é comparável ao da cibersegurança — ou até maior. Ele ressalta que, apesar dos avanços tecnológicos, os riscos não tendem a desaparecer.
A demanda por seguros específicos de IA reflete um problema que o mercado já reconhece: identificar onde esses sistemas falham ainda exige esforço humano dedicado — como mostrou a startup americana que chegou a pagar R$ 4 mil por dia para alguém provocar erros em chatbots.