A Raízen protocolou nesta quarta-feira (11) um pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras. O plano já conta com adesão de credores que representam mais de 47% desse valor.
O movimento ocorre após um ciclo de endividamento acelerado: a dívida líquida da empresa saltou de R$ 13,8 bilhões para R$ 55,3 bilhões nos últimos anos, enquanto os prejuízos acumulados chegaram a R$ 15,6 bilhões até o terceiro trimestre do ano fiscal 2025/2026.
No mercado, as ações preferenciais (RAIZ4) cederam 3,85% logo após o anúncio, cotadas a R$ 0,50 — parte de uma queda de 70% nos últimos 12 meses. O valor de mercado atual da companhia é de cerca de R$ 5,38 bilhões.
De lucro bilionário a pedido de recuperação
No ano fiscal de 2021/2022, a Raízen registrou lucro líquido de R$ 3 bilhões e dívida líquida de R$ 13,8 bilhões — um patamar então considerado saudável. O cenário se deteriorou rapidamente nos anos seguintes.
Até o terceiro trimestre do ano fiscal 2025/2026, os prejuízos acumulados chegaram a R$ 15,6 bilhões, parte deles influenciada por um ajuste contábil de R$ 11 bilhões. A dívida líquida atingiu R$ 55,3 bilhões, tornando insustentável a relação entre endividamento e geração de caixa.
Apostas de longo prazo com retorno aquém do esperado
A partir de 2016, a Raízen acelerou investimentos em projetos de transição energética financiados por dívida. O principal foi a expansão do etanol de segunda geração (E2G), que usa resíduos da cana-de-açúcar — bagaço e palha — para produzir biocombustível, numa aposta atrelada à crescente demanda por combustíveis de baixo impacto ambiental.
Enquanto isso, o etanol de milho ganhou espaço no mercado brasileiro com custos competitivos e produção mais simples, pressionando as margens da empresa. A expansão internacional também pesou: desde 2018, a Raízen adquiriu ativos de refino e distribuição da Shell na Argentina e passou a operar no Paraguai.
No mesmo dia em que a Raízen protocolava o pedido, a Compass — outro braço da Cosan — avançava com seu pedido de IPO na CVM, expondo os movimentos simultâneos e contraditórios da holding controladora.
O que prevê o plano de recuperação
A reestruturação envolve exclusivamente dívidas financeiras, sem afetar contratos com clientes, fornecedores e parceiros. A Raízen garante que todas as operações — incluindo os mais de 70 terminais de distribuição e as 68 bases de abastecimento em aeroportos — seguem em funcionamento normal.
O plano pode incluir aporte de capital pelos acionistas, conversão de parte das dívidas em participação acionária, alongamento de prazos de pagamento e eventual venda de ativos. A empresa tem até 90 dias para obter o apoio mínimo necessário à homologação judicial.
Nos bastidores da reestruturação, a Shell já negociava um aporte de R$ 4 bilhões para capitalizar a Raízen — R$ 3,5 bilhões da petroleira e R$ 500 milhões via veículo ligado à família Ometto —, o que dimensiona a escala do esforço para salvar a empresa, conforme detalhado em reportagem do Tropiquim sobre os pedidos simultâneos da Raízen e do GPA.
Em teleconferência recente, os executivos sinalizaram que o foco agora é retomar as atividades centrais — produção de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis —, deixando para trás parte dos projetos de diversificação que contribuíram para o endividamento da companhia.