A Anvisa emitiu um alerta de farmacovigilância sobre o risco de inflamação e lesão hepática associados ao uso de suplementos e medicamentos com cúrcuma — especialmente em cápsulas ou extratos concentrados.
O problema não está ligado ao consumo do tempero na alimentação, mas a formulações desenvolvidas para ampliar a absorção da curcumina, o principal composto ativo da planta, que sobrecarregam o fígado com doses muito maiores do que as obtidas na dieta.
Casos de hepatite medicamentosa já foram registrados em sistemas de vigilância sanitária de países como Itália, Austrália, Canadá e França.
Como o suplemento afeta o fígado
Nos suplementos alimentares, a curcumina costuma aparecer em doses muito mais altas do que as consumidas na alimentação. Muitas formulações incluem substâncias que potencializam a absorção do composto — como a piperina, presente na pimenta-preta —, fazendo com que uma quantidade muito maior seja metabolizada pelo fígado.
Em algumas pessoas, esse processo pode desencadear uma reação inflamatória nas células hepáticas, levando à hepatite medicamentosa — um tipo de lesão hepática induzida por substâncias químicas.
Segundo Pedro Bertevello, cirurgião do aparelho digestivo da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o risco tende a ocorrer principalmente em doses elevadas ou sem orientação médica. “Muitas pessoas acreditam que suplementos naturais são totalmente seguros e acabam aumentando a quantidade por conta própria”, afirmou. O médico também aponta a falta de padronização na concentração dos produtos como fator que contribui para o risco.
Alertas internacionais e resposta regulatória
Itália, Austrália, Canadá e França já haviam emitido avisos semelhantes antes da ação brasileira. Na França, a ANSES identificou dezenas de relatos de efeitos adversos ligados a suplementos com cúrcuma ou curcumina, incluindo episódios de hepatite.
No Brasil, a Anvisa determinou a atualização das bulas dos medicamentos Motore e Cumiah. A agência também abrirá um processo de reavaliação do uso dessas substâncias em suplementos alimentares e exigirá a inclusão de advertências obrigatórias nos rótulos dos produtos.
Sintomas e o que fazer
A Anvisa orienta que usuários de suplementos com cúrcuma procurem avaliação médica caso apresentem sintomas compatíveis com lesão hepática — como icterícia (pele ou olhos amarelados), dor abdominal, urina escura, fadiga intensa ou náuseas. A recomendação é interromper imediatamente o uso do produto e buscar atendimento de saúde diante de qualquer um desses sinais.
Eventos adversos podem ser reportados pelos canais oficiais da Anvisa: o VigiMed, voltado a medicamentos, e o e-Notivisa, utilizado para suplementos e outros produtos.
O alerta sobre a cúrcuma integra um padrão recente de endurecimento da Anvisa com o mercado de suplementos: semanas antes, a agência já havia determinado o recolhimento dos suplementos Calm Days e Libi Now por ausência de estudos de estabilidade — exigência obrigatória para garantir segurança ao consumidor.