O governo brasileiro reagiu à escalada de violência no Oriente Médio com duas notas oficiais em poucas horas — e usou o mesmo rigor para criticar tanto o ataque coordenado de Estados Unidos e Israel contra o Irã quanto a retaliação iraniana com mísseis.
A postura do Itamaraty, ancorada na Carta da ONU e na Constituição Federal, reflete o que diplomatas do governo Lula descrevem como foco em "fatos, não em personagens" — sem relativizar violações a depender de quem as comete.
Carta da ONU como bússola da política externa
A política externa brasileira se apoia em três pilares: não intervenção, solução pacífica de controvérsias e repúdio ao uso da força. Os princípios, presentes tanto na Constituição quanto na Carta das Nações Unidas de 1945, formam o que diplomatas ouvidos reservadamente descrevem como "fio condutor" do posicionamento oficial do Brasil.
O artigo 2 da Carta determina que os membros devem resolver disputas por meios pacíficos e evitar a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial de qualquer Estado. O artigo 51 permite ação armada em legítima defesa apenas até que o Conselho de Segurança tome as medidas necessárias para restaurar a paz.
O precedente mais recente estava em casa: quando a Venezuela ameaçou usar a força contra a Guiana na disputa pelo Essequibo em 2023, o Brasil se manifestou publicamente contra Caracas e organizou uma reunião ministerial no Itamaraty para evitar a escalada — prova de que o critério se aplica independentemente de alianças.
A coerência do posicionamento ficou evidente também no Brics: enquanto Índia e Emirados concentraram suas críticas na retaliação iraniana, Brasil, Rússia e China condenaram o ataque israelo-americano — expondo uma fratura inédita no bloco em torno da guerra no Irã.
A postura brasileira não se limitou às notas diplomáticas. Desde o início das tensões, o Itamaraty monitorava ativamente o conflito e mantinha contato com comunidades brasileiras no Líbano e nos países vizinhos, acompanhando o risco de expansão regional.
No mesmo dia em que o Ministério das Relações Exteriores emitia sua segunda nota pedindo o fim das hostilidades, Lula discursava na FAO cobrando que líderes mundiais escolhessem a paz em vez de arsenais — e criticava os cerca de US$ 2 trilhões gastos em conflitos em 2025.
A mesma linha se manteve quando forças americanas atacaram a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro. Lula condenou publicamente a ação de Donald Trump, afirmando que ela ultrapassou a linha do que seria aceitável na relação entre países.
"A questão não depende se você tem simpatia pelo lado A ou pelo lado B", resumiu um auxiliar da diplomacia brasileira. "Uma regra basilar da ordem internacional é a soberania — e ela tem que ser respeitada por todos."