A segunda prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, dominou as pautas das principais redações financeiras do mundo. Financial Times, Bloomberg, Reuters e Associated Press acompanharam as revelações da terceira fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal.
Para a Bloomberg, o caso ganhou contorno inédito ao expor não apenas crimes de colarinho branco, mas uma suposta milícia pessoal — descrita pela plataforma como um “toque de violência” adicionado ao escândalo brasileiro.
O Financial Times definiu a detenção como “uma escalada significativa” na investigação de fraude e lavagem de dinheiro. O banco faliu em novembro de 2025 com prejuízos estimados em mais de R$ 40 bilhões, tornando-se a maior falência bancária do Brasil em uma geração, segundo o jornal britânico.
A Bloomberg destacou que a nova investigação “foi além dos crimes de colarinho branco pelos quais Vorcaro já havia sido acusado anteriormente”. O escândalo ganhou contornos mais sombrios com a revelação de um grupo apelidado de “a turma”, que teria atuado para vigiar e coagir adversários, ex-funcionários e jornalistas.
A mensagem que repercutiu no exterior
A Bloomberg e a Associated Press reproduziram a mensagem em que Vorcaro teria expressado o desejo de “quebrar todos os dentes” do jornalista Lauro Jardim, do O Globo. Segundo a PF, o texto era direcionado a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — identificado nos autos como “Sicário” —, líder operacional do grupo. Os diálogos interceptados foram usados pela PF para mapear toda a hierarquia da rede de intimidação.
Conexões políticas no centro do escândalo
A Bloomberg também destacou as mensagens que revelam a familiaridade de Vorcaro com figuras de alto escalão: o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que o banqueiro chamou de “um dos meus grandes amigos de vida”, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o ministro do STF Alexandre de Moraes. Os diálogos foram encaminhados pelo Supremo à CPMI do INSS no Congresso após a quebra de sigilo telefônico do empresário.
A Reuters concentrou sua cobertura no impacto da operação sobre a credibilidade do Banco Central. A notícia de que dois servidores da autarquia — o ex-diretor Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, chefe da área de supervisão bancária — teriam recebido pagamentos de Vorcaro em troca de assessoria regulatória “causou grande comoção em Brasília”, nas palavras da agência.
A Reuters lembra que o BC havia construído a reputação de “bastião de servidores públicos pragmáticos, resistentes à política brasileira” ao liquidar o Master em novembro de 2025. Essa imagem teria sido abalada pelas acusações da PF. Souza e Santana foram afastados dos cargos por determinação do ministro André Mendonça e passaram a usar tornozeleira eletrônica. As revelações da terceira fase da Operação Compliance Zero — a milícia privada de espionagem e a corrupção de servidores do BC — estão no centro da cobertura internacional do caso.
A agência também destacou as “intervenções incomuns” do TCU e do STF ao questionar a liquidação do banco, apesar de nenhum dos dois órgãos ter autoridade de supervisão bancária — o que, segundo a Reuters, “aumentou as dúvidas sobre a influência desproporcional do banqueiro”. O Banco Central informou que não comentaria sobre as implicações do caso para sua reputação. A defesa de Vorcaro contestou as acusações; a de seu cunhado Fabiano Zettel disse que não conhece o teor das imputações.