Dois servidores do Banco Central afastados na nova fase da operação Compliance Zero, da Polícia Federal, chefiavam as principais áreas de supervisão do sistema financeiro — justamente as responsáveis por monitorar e fiscalizar o Banco Master.
Paulo Sérgio Neves de Souza dirigia a Diretoria de Fiscalização (Difis) e Belline Santana comandava o Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Ambos já haviam sido afastados pelo BC em janeiro e assinaram documentos que, segundo a PF, prolongaram negócios suspeitos do Master.
O que faziam os dois servidores no Banco Central
A Diretoria de Fiscalização (Difis) é a principal responsável pela supervisão das instituições autorizadas a operar no Brasil. Cabe à área monitorar o modelo de negócio e a solvência dos bancos — ou seja, se têm condições de honrar compromissos de longo prazo e se cumprem as normas e regulamentos vigentes.
O chefe da Difis representa ainda o Banco Central no Comitê de Supervisão Bancária da Basileia, fórum internacional para formulação de recomendações sobre gerenciamento de riscos e crises do sistema financeiro.
Já o Departamento de Supervisão Bancária (Desup) opera sob o guarda-chuva da Difis e monitora capital e liquidez dos bancos. É o Desup que sinaliza a necessidade de medidas preventivas, classifica instituições por risco e supervisiona conglomerados financeiros — incluindo o Master e as entidades ligadas a ele.
A auditoria interna do BC sobre o Master remonta a 2018, quando Daniel Vorcaro obteve autorização para comprar o Banco Máxima. Uma sindicância aberta pelo próprio Banco Central contra os servidores — antes da PF agir — foi o material que fundamentou a prisão preventiva de Vorcaro decretada pelo STF.
Para o ministro André Mendonça, os dois servidores não se limitavam às funções técnicas de suas diretorias. Segundo o STF, Paulo Sérgio e Belline atuavam como consultores informais de Vorcaro, antecipando informações sigilosas e orientando o banqueiro em reuniões institucionais.
O esquema que os dois teriam contribuído para encobrir é de grandes proporções. As investigações apontam que o Master emitiu cerca de R$ 50 bilhões em CDBs sem lastro antes de ter a liquidação decretada pelo Banco Central em novembro de 2025.
Em nota, o Banco Central declarou estar convicto no trabalho desenvolvido pela Polícia Federal e afirmou que as condutas infracionais identificadas receberão a devida resposta sancionatória de acordo com a lei, observado o devido processo legal e o direito à ampla defesa.