O ministro André Mendonça, relator da operação Compliance Zero no STF, afirmou em decisão que há integrantes do “alto escalão da República” na investigação — mas nenhum nome de expressão foi revelado publicamente até agora.
Os únicos identificados até o momento são quadros de segundo e terceiro escalão ligados ao Banco Central. A lacuna é tratada por investigadores como indício de que autoridades com foro privilegiado ainda figuram no inquérito — o que explicaria sua permanência no Supremo.
A decisão de Mendonça chama atenção por dois aspectos centrais. O ministro não cogitou em nenhum momento enviar o caso à primeira instância nem desmembrar o inquérito — sinal, para os investigadores, de que há autoridades com prerrogativa de foro na mira da operação.
Os únicos nomes que vieram a público até agora são Paulo Sérgio Neves e Bellini Santana — dois ex-dirigentes do Banco Central afastados cautelarmente, quadros de segundo e terceiro escalão bem abaixo do “alto escalão da República” mencionado por Mendonça na decisão. O verdadeiro alto escalão, que justifica a competência do STF, ainda não foi identificado publicamente.
A terceira fase da Compliance Zero, que resultou na prisão preventiva de Vorcaro e expôs a estrutura da organização criminosa chamada “A Turma”, deixou em aberto exatamente o ponto que mantém o caso no Supremo: quem são as autoridades de alto escalão.
Investigadores descrevem dois eixos centrais na operação: o mapeamento do “submundo” de Vorcaro — como atuavam seus capangas e como funcionava uma espécie de dark web ligada ao esquema — e a possível corrupção de integrantes do Banco Central. Mendonça tem imprimido o próprio estilo ao processo, dando mais publicidade às ações da Polícia Federal.
Outro ponto de destaque é que o ministro acolheu integralmente os pedidos da PF — contraste com a relação mais tensa que os delegados mantinham com o ministro Dias Toffoli em etapas anteriores do processo.
Nos bastidores da investigação, começou a circular a avaliação de que o entorno de Daniel Vorcaro pode considerar uma colaboração com os investigadores — hipótese que, no início do caso, era tratada como descartada.
Um dos fatores que pode impulsionar esse movimento é a transferência de Vorcaro para o sistema prisional estadual, também determinada por Mendonça a pedido da PF. A mudança de ambiente é vista como pressão adicional sobre o investigado e seu círculo próximo.
A lógica de uma eventual delação premiada, porém, traz uma complicação central: pela dinâmica das colaborações, o investigado precisa apontar pessoas acima na hierarquia do esquema — não subordinados. Quem seria o alvo de uma delação de Vorcaro permanece como a grande incógnita da operação.
A resposta pode estar justamente no “alto escalão” citado por Mendonça — e cuja identidade, até agora, segue fora do alcance do noticiário.