Marcas como Zara e H&M chegam ao Brasil com preços mais altos do que em outros países, apesar de prometerem moda acessível. Relatórios do BTG Pactual e análises de especialistas apontam o “Custo Brasil”, questões logísticas e estratégias de marketing como causas principais. O fenômeno afeta tanto marcas estrangeiras quanto nacionais.
Fatores que elevam os preços
O relatório do BTG Pactual destaca que o chamado “Custo Brasil” é composto por carga tributária elevada, custos logísticos e operacionais em um país de dimensões continentais e a competitividade do mercado nacional. Esses fatores encarecem os produtos de marcas como Zara e H&M, que são consideradas acessíveis em outros mercados.
O “índice Zara”, elaborado desde 2014, compara preços da marca espanhola em 54 países. Em 2025, o estudo mostrou que, apesar de os preços da Zara no Brasil serem 7% mais baratos que nos EUA, ao ajustar pelo poder de compra, o brasileiro paga cerca de 135% a mais por uma peça em relação ao consumidor americano. Segundo o analista do BTG, a menor renda média nacional dificulta o acesso a esses produtos.
Além disso, marcas estrangeiras costumam produzir suas peças no Sudeste Asiático, o que aumenta impostos de importação e exige produção antecipada. A H&M já iniciou a fabricação local de alguns itens, como calçados e biquínis, para tentar reduzir custos.
Fast fashion e posicionamento de mercado
Syomara Duarte, professora da UFC, ressalta que fatores sazonais e geográficos também influenciam os preços, já que as coleções lançadas no Hemisfério Norte chegam com atraso e valores superiores ao Hemisfério Sul. Ela observa que o fast fashion, modelo adotado por Zara e H&M, visa atender demandas imediatas e maximizar lucros, tornando as peças rapidamente descartáveis.
No Brasil, a Zara adota o posicionamento de “luxo acessível”, enquanto na Europa suas lojas ocupam prédios históricos e oferecem experiências diferenciadas. Já a H&M apostou em eventos de lançamento com artistas como Tyla, Gilberto Gil e Anitta para atrair o público jovem.
Transparência e qualidade no consumo
Syomara Duarte destaca a alta qualidade da indústria têxtil nacional e recomenda que consumidores avaliem o acabamento, caimento, modelagem e tecidos das peças estrangeiras, questionando o valor de produtos sintéticos em climas quentes.
A transparência das marcas é outro ponto crítico. Segundo Bárbara Poerner, consultora do Instituto Febre, é difícil para o consumidor brasileiro acessar informações sobre tributações, acordos fiscais e práticas sustentáveis das marcas. Ela aponta a necessidade de mecanismos de cobrança e acesso a dados sobre origem dos materiais e condições de trabalho, temas abordados no ranking de transparência do Fashion Revolution, que avalia direitos humanos, trabalhistas e iniciativas sustentáveis nas cadeias produtivas.
Apesar de avanços, os relatórios indicam que ainda há muito a ser feito para melhorar a acessibilidade e a responsabilidade das marcas estrangeiras no Brasil, tanto em relação a preços quanto à transparência e sustentabilidade.