Na última semana, países como França, Reino Unido e Bélgica reconheceram oficialmente o Estado da Palestina durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Apesar dos protestos de Israel e dos Estados Unidos, mais de 140 países já adotaram essa posição, incluindo o Brasil. Especialistas destacam que o reconhecimento é principalmente simbólico e precisa ser acompanhado de ações concretas para ter impacto real.
Repercussão internacional e contexto do reconhecimento
O reconhecimento do Estado palestino por países europeus ocorre em meio à intensificação da campanha militar israelense em Gaza, que, segundo o Ministério da Saúde do governo do Hamas, já resultou em mais de 65 mil mortes. Na última terça-feira (16), uma comissão do Conselho de Direitos Humanos da ONU acusou Israel de genocídio em Gaza, acusação rejeitada por Israel e pelos Estados Unidos. Para esses países, reconhecer a Palestina seria recompensar o terrorismo, em referência aos ataques de 7 de outubro de 2023, quando militantes do Hamas mataram cerca de 1.200 pessoas em Israel.
Até mesmo apoiadores da criação de um Estado palestino reconhecem que o gesto, isoladamente, é insuficiente. A ativista Ines Abdel Razek, do Instituto Palestino para Diplomacia Pública, afirmou que “os países ocidentais adotam medidas simbólicas, enquanto os palestinos seguem sem justiça e sem um Estado funcional”. O colunista Owen Jones, do The Guardian, considera que “todas as ações tomadas contra Israel foram performáticas, pensadas para conter a pressão da opinião pública por medidas concretas”.
Há dúvidas sobre como o governo israelense irá reagir. O especialista Richard Gowan, do International Crisis Group, alerta para a possibilidade de o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu responder anunciando planos para anexar formalmente partes dos territórios palestinos. Netanyahu já declarou que “não haverá um Estado palestino”.
Importância simbólica e possíveis impactos
O reconhecimento, embora não encerre a guerra em Gaza, pode fortalecer a defesa de um cessar-fogo. O analista Omar Auf relembra que, em 1989, autoridades palestinas tentaram aderir às Convenções de Genebra, mas foram rejeitadas devido à incerteza sobre a existência de um Estado palestino. Para a especialista Nomi Bar-Yaacov, do Centro de Política de Segurança de Genebra, o reconhecimento aumenta a participação palestina em negociações, pois “quando se negocia Estado perante Estado não é o mesmo que negociações entre um Estado e uma entidade não reconhecida”.
O analista Hugh Lovatt, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, observa que o simbolismo não é negativo: “trata-se de uma importante reafirmação dos direitos e da autodeterminação dos palestinos”. Segundo ele, o reconhecimento deve ser visto como um passo no caminho para a soberania palestina.
Desdobramentos e medidas práticas
Especialistas e analistas ressaltam que gestos simbólicos precisam ser acompanhados de ações concretas. O analista político Anas Iqtait, da Universidade Nacional Australiana, afirma que “reconhecimento não é política, é um início. O verdadeiro trabalho começa no dia seguinte”.
Na União Europeia, a chefe da diplomacia, Kaja Kallas, sugeriu aumentar tarifas sobre produtos israelenses e sancionar colonos e ministros da ultradireita, como Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir. Essas medidas já haviam sido recomendadas por especialistas do ECFR. Uma fonte em Bruxelas informou que a Itália pode deixar de se opor à interrupção do financiamento científico da UE para Israel.
Especialistas jurídicos lembram que o reconhecimento de um Estado não isenta países da obrigação internacional de agir diante de suspeitas de genocídio. O colunista Gideon Levy, do Haaretz, critica o reconhecimento isolado, chamando-o de “declaração vazia” e defendendo boicotes e sanções mais efetivas.