O governo Lula já considera as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros como uma realidade, sem expectativa de recuo por parte do presidente Donald Trump. As medidas, que devem entrar em vigor em 1º de agosto, têm levado o governo a buscar alternativas e manter canais de negociação, mesmo avaliando a possibilidade de retaliação.
Reuniões com setores econômicos e missões parlamentares aos EUA fazem parte das tentativas de sensibilizar autoridades americanas sobre os impactos das tarifas. O governo também discute possíveis respostas, mas evita divulgar detalhes enquanto o cenário permanece imprevisível.
Estratégias do governo diante das tarifas
Desde o anúncio das tarifas, o governo brasileiro intensificou reuniões com representantes da indústria, agronegócio e mineração para avaliar alternativas e estratégias para reverter as medidas. Uma das ações é incentivar empresários brasileiros a mobilizarem clientes nos EUA, buscando sensibilizar parlamentares e autoridades americanas sobre os impactos diretos das tarifas em produtos como café e suco de laranja, que podem chegar mais caros ao consumidor norte-americano.
Além disso, uma missão parlamentar liderada pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS) será enviada a Washington, com oito parlamentares tentando pressionar o Congresso e o governo Trump. No entanto, interlocutores do governo relatam dificuldades em estabelecer diálogo com a administração Trump, já que decisões sobre as tarifas teriam sido tomadas por um grupo politicamente próximo à família Bolsonaro, com influência do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que reside nos EUA desde o início do ano.
Enquanto isso, equipes do Ministério da Fazenda, MDIC e Presidência estudam medidas para eventual retaliação, como prometido por Lula. O presidente classificou as tarifas como “chantagem inaceitável” e afirmou que o Brasil usará todos os instrumentos legais, incluindo recursos à Organização Mundial do Comércio e à Lei da Reciprocidade. Lula também cogitou aumentar a taxação de plataformas de tecnologia, mas a proposta foi negada pelo Ministério da Fazenda.
O governo evita divulgar quais setores podem ser alvo de retaliação, preferindo manter sigilo até que decisões sejam tomadas. Rumores sugerem possíveis medidas em áreas como patentes de medicamentos e direitos autorais de produtos audiovisuais.
Motivações políticas e cenário de impasse
Fontes do governo avaliam que, ao contrário de outros países, as tarifas impostas por Trump ao Brasil têm motivação essencialmente política, não econômica. Uma das evidências seria o déficit comercial de US$ 410 bilhões do Brasil com os EUA nos últimos 15 anos e o fato de Trump vincular explicitamente as tarifas ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo STF.
Trump afirmou em carta que a forma como o Brasil trata Bolsonaro é “uma vergonha internacional” e que o julgamento é “uma caça às bruxas”. Interlocutores do governo acreditam que as sanções visam influenciar o processo eleitoral de 2026, pressionando pela reabilitação política de Bolsonaro ou de aliados alinhados aos interesses de Trump.
Apesar de Trump já ter recuado em tarifas contra China e União Europeia, o governo brasileiro vê remotas as chances de reversão neste caso. Sinais recentes, como a revogação de vistos para ministros do STF e o Procurador-Geral da República, reforçam o distanciamento. Bolsonaro, atualmente inelegível, nega envolvimento em crimes e é réu no STF. O governo Lula segue apostando oficialmente na negociação, mas já admite a entrada em vigor das tarifas e prepara possíveis retaliações.