A imposição de uma tarifa de 50% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, incluindo aeronaves da Embraer, cria um cenário desafiador para a empresa e o setor aeroespacial nacional.
O aumento dos custos ameaça contratos e pode inviabilizar novos negócios no mercado americano, principal destino das exportações da companhia.
Alternativas como diversificação de mercados e produção local nos EUA estão em análise, enquanto o governo brasileiro avalia possíveis retaliações.
Impactos imediatos da tarifa sobre a Embraer
A nova tarifa de 50% eleva substancialmente o preço das aeronaves brasileiras nos Estados Unidos, tornando-as menos competitivas frente a rivais internacionais. O custo adicional pode chegar a R$ 50 milhões por avião, segundo estimativas da própria Embraer, e o impacto total pode alcançar R$ 2 bilhões em 2024, com projeção de até R$ 20 bilhões até 2030.
Os contratos de venda de aeronaves normalmente transferem o custo das tarifas para as companhias aéreas, que podem cancelar pedidos ou adiar entregas diante do aumento de preços. Analistas e o presidente da empresa, Gomes Neto, ressaltam que o setor enfrenta dificuldades para redirecionar aeronaves destinadas ao mercado americano, pois modelos como o E175 são projetados especificamente para atender à scope clause dos sindicatos dos EUA.
Valerio, do UBS BB, destaca que cerca de 35% a 36% dos aviões da Embraer são voltados ao mercado norte-americano, com baixa demanda em outros países. A alternativa de ampliar a produção nos EUA é considerada, mas viável apenas para jatos executivos, já que a demanda por aviões comerciais permanece estável, com previsão de 45 pedidos anuais na próxima década.
Negociações e riscos de retaliação
O anúncio da tarifa surpreendeu o mercado. Em 15 de abril, o vice-presidente Geraldo Alckmin reuniu-se com empresários para discutir impactos e estratégias. Empresários solicitaram ao governo brasileiro que negocie com os EUA o adiamento da tarifa por até 90 dias, mas o governo não planeja pedir esse prazo.
Entidades como a Câmara de Comércio dos EUA e a Amcham emitiram nota conjunta pedindo diálogo de alto nível, argumentando que a tarifa prejudicaria cadeias produtivas e consumidores americanos, além de reduzir a competitividade de setores estratégicos dos EUA.
Gomes Neto, presidente da Embraer, demonstrou otimismo quanto a uma negociação, citando o acordo recente entre EUA e Reino Unido, que reduziu tarifas aeroespaciais de 10% para zero. Ele afirmou que a Embraer tem atuado ativamente junto a autoridades americanas para mostrar sua contribuição ao país, mas ressaltou que o impacto de curto prazo será difícil para a companhia.
Lei de reciprocidade e desafios adicionais
Outro risco é a possível aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica, sancionada por Lula em abril, que permite ao Brasil retaliar medidas comerciais externas. Cerca de 45% dos custos de produção da Embraer envolvem componentes dos EUA, o que elevaria ainda mais os custos caso a lei seja acionada. “Se o governo decidir aplicar a Lei de Reciprocidade, é game over”, alerta Valerio, do UBS BB.