Produtores de tilápia de Mato Grosso do Sul enfrentam incertezas após os Estados Unidos anunciarem tarifa extra de 50% sobre produtos brasileiros.
Com 99% da tilápia exportada destinada ao mercado americano, empresários locais pedem negociações para evitar perdas financeiras e impactos na cadeia produtiva.
Frigoríficos do estado já suspenderam parte da produção voltada aos EUA, enquanto autoridades e setor buscam alternativas para contornar a crise.
Impacto imediato das tarifas americanas
A nova tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos, anunciada pelo presidente Donald Trump, atinge diretamente a produção de tilápia de Mato Grosso do Sul, já que quase toda a carne do peixe é exportada para o país. O Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul (Sincadems) confirmou a suspensão da produção destinada ao mercado americano.
Segundo Noujaim, gerente de frigorífico, cerca de 25% da produção mensal da empresa, equivalente a 250 toneladas, era enviada aos EUA, principalmente como filé de tilápia resfriado. Ele alerta que a operação, que exige altos investimentos logísticos, pode se tornar inviável caso as tarifas persistam. “Imagina a gente ter que pagar armazenagem para manter esse produto e depois ainda ter que vender esse produto mais barato do que o nosso custo de produção. Acaba afetando a viabilidade da produção”, afirma.
Com a suspensão das exportações, há risco de acúmulo de estoques e queda dos preços internos, beneficiando o consumidor brasileiro, mas pressionando a indústria. “Para o consumidor nesse momento de certa forma vai ter vantagem, mas para o produtor vai afetar no volume de produção”, explica Noujaim.
Panorama da piscicultura em MS
De acordo com o Anuário da Piscicultura 2024 da associação Peixe BR, Mato Grosso do Sul é o 5º maior produtor nacional de tilápia e o 8º em criação de peixes de cultivo. O estado subiu do 14º para o 10º lugar nacional em produção de peixes de cultivo entre 2017 e 2022, segundo o IBGE, aumentando sua participação de 2,2% para 3,8%.
Entre janeiro e agosto de 2024, o abate de peixes no estado chegou a 16,8 milhões de unidades, crescimento de quase 67% em relação ao mesmo período de 2023.
Reflexos no setor de carne bovina
Os frigoríficos de Mato Grosso do Sul também suspenderam a produção de carne destinada aos Estados Unidos. Segundo o vice-presidente do Sincadems, Alberto Sérgio Capucci, a medida é logística para evitar estoques de carne sem mercado. “A produção de carne foi paralisada apenas naqueles setores específicos para produção aos EUA. Se eu produzir e enviar carne hoje, a carga chegará aos EUA já com a tributação adicional. A taxação causou inviabilidade financeira para os produtores”, diz Capucci.
Pelo menos quatro frigoríficos interromperam a produção para o mercado americano: JBS, Naturafrig, Minerva Foods e Agroindustrial Iguatemi. Apenas a Naturafrig confirmou que cerca de 5% de sua produção era destinada aos EUA.
O secretário Jaime Verruck, da Semadesc, ressalta que há preocupação com o acúmulo de carne estocada e que os frigoríficos ajustam suas escalas para buscar novos mercados. “Temos, então, um aumento de estoque da carne que seria direcionada aos Estados Unidos”, afirma.
Chile e Egito como possíveis destinos
Verruck aponta que Chile e Egito são avaliados como alternativas para a carne sul-mato-grossense, mas o redirecionamento é gradual e depende da competitividade dos preços. “Podemos ter um excesso de oferta no mercado interno no curto prazo, tendo uma redução de preços na ponta e, consequentemente, uma redução ao produtor. É extremamente complexo esse momento”, avalia.