A “machosfera” promete pertencimento a homens em sofrimento — e entrega isolamento, rigidez e hostilidade. A denúncia é de Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil, em entrevista publicada nesta semana.
O debate ganhou urgência após a trend “caso ela diga não”, que incita violência contra mulheres nas redes sociais e virou alvo de investigação da Polícia Federal.
O que é a machosfera — e como ela opera
A “machosfera” é uma rede de grupos, páginas e influenciadores que discutem masculinidade com frequente viés misógino e violento. Para Palayret, o fenômeno cresce porque responde a um vazio real: meninos que não têm espaço seguro para expressar inseguranças e vulnerabilidades.
“O problema é que [a rede] promete uma cura, mas entrega isolamento, rigidez e hostilidade”, afirma a representante, que assumiu o cargo no Brasil em janeiro deste ano.
A trend “caso ela diga não” ilustra o alcance desse tipo de conteúdo: o Tropiquim mapeou ao menos 20 vídeos com mais de 175 mil interações simulando agressões a mulheres após rejeição amorosa — materiais que se espalharam com mais facilidade do que conteúdo educativo, pois o algoritmo do TikTok premia alto engajamento independentemente do teor.
Regulação esbarra em lacunas legais e interesses das big techs
Palayret reconhece a dificuldade de conter esses conteúdos. Quando um perfil é derrubado, novos surgem rapidamente — como ficou evidente após a Polícia Federal abrir inquérito e derrubar perfis ligados à trend: os criadores de conteúdo continuaram ativos na plataforma.
A representante aponta ainda os interesses financeiros das plataformas como obstáculo estrutural. “Este tipo de conteúdo mais violento, extremo, elas sabem que atrai muitas pessoas, e muitos jovens, desafortunadamente”, diz.
Além da moderação, ela defende marcos legais mais robustos contra a violência digital, transparência das plataformas e educação digital para que jovens reconheçam discursos de ódio e manipulação. A PF identificou que não há tipificação específica de misoginia no ordenamento jurídico brasileiro — lacuna que torna urgente a adaptação ao país da Lei Modelo Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Digital de Gênero contra as Mulheres, lançada em dezembro de 2025 pela OEA e atualmente em discussão com o governo.
O que funciona: saúde mental e modelos alternativos de masculinidade
Para Palayret, a resposta à machosfera não pode ser apenas repressiva. O que funciona, segundo ela, são “redes de pertencimento, saúde mental para meninos, educação emocional e modelos de masculinidade que não dependem de controle sobre mulheres”.
A proposta inclui criar espaços onde meninos possam compartilhar inseguranças sem se tornarem alvo de discursos de ódio — justamente o vácuo explorado pelos grupos da machosfera. Ela defende ainda cooperação entre governo, empresas e sociedade civil para conter a disseminação de conteúdos violentos.
Advogada e francesa, Palayret assumiu o comando da ONU Mulheres no Brasil em janeiro deste ano. A entidade, vinculada às Nações Unidas, atua pela igualdade de gênero e o empoderamento de mulheres.
Os dados reforçam a urgência do debate: o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025, com 1.470 mulheres mortas por esse tipo de crime ao longo do ano, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública.