Mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro pela Polícia Federal chegaram à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fraudes no INSS e expõem uma rede de encontros e articulações com autoridades dos três poderes.
O material cobre de fevereiro de 2024 a novembro de 2025 e consiste em diálogos com a namorada do banqueiro, a modelo Martha Graeff, nos quais Vorcaro descreve reuniões, jantares e viagens com figuras de alto escalão do governo, do Congresso e do Judiciário.
Entre os citados estão o presidente Lula, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes (STF) e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) — o mais recorrente nos diálogos, descrito pelo banqueiro como “um grande amigo”.
Ciro Nogueira, o mais próximo
O senador aparece em múltiplos diálogos, descrito por Vorcaro como “um dos grandes amigos de vida”. As conversas detalham convivência em almoços, jantares e viagens internacionais ao longo de 2024 e 2025.
Em agosto de 2024, Vorcaro celebrou proposta de Nogueira para elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A emenda foi apresentada menos de duas horas antes de Vorcaro comemorá-la com a namorada, segundo apuração do Tropiquim. O banqueiro chamou a iniciativa de “bomba atômica no mercado financeiro” — medida que beneficiaria bancos médios como o Master, mas que não foi aprovada pelo Congresso.
Em nota, Nogueira afirmou que mantém diálogos com centenas de pessoas, o que “não o torna próximo apenas por, eventualmente, interagir com elas”, e negou qualquer “conduta inadequada relacionada ao caso em apuração”.
Bolsonaro chamado de “idiota” e encontros com Moraes
Em julho de 2024, Vorcaro chamou Jair Bolsonaro de “idiota” e “beócio” em mensagem à namorada. O motivo: uma publicação do ex-presidente no X sobre o Master e a Caixa Econômica que, segundo o banqueiro, amplificou a repercussão negativa do caso nas redes sociais.
O ministro Alexandre de Moraes é citado em relatos de encontros informais e reuniões políticas com parlamentares. O STF e o gabinete de Moraes não se manifestaram sobre as mensagens.
Encontro com Lula confirmado pelo presidente
Em 4 de dezembro de 2024, os diálogos registram uma reunião em Brasília que o próprio Lula confirmou. Segundo o presidente, o ex-ministro Guido Mantega levou Vorcaro ao Palácio — compromisso sem registro na agenda oficial. O encontro também envolveu ministros e Gabriel Galípolo, então indicado para presidir o Banco Central. “Não haverá posição política pró ou contra o Banco Master”, disse Lula ter afirmado ao banqueiro, acrescentando que as investigações ficariam a cargo do Banco Central.
Além das figuras centrais, os arquivos enviados à CPMI registram citações a outros nomes de peso. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), aparece em mensagem de março de 2025. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), é mencionado em agosto de 2025, quando Vorcaro relata ter estado na residência oficial da Casa. O deputado Aécio Neves (PSDB-MG) aparece num almoço com Ciro Nogueira e o empresário Álvaro Garnero. João Doria, ex-governador de São Paulo, trocou mensagens de apoio com o banqueiro. O deputado Fausto Pinato (PP-SP) é associado a reuniões por videoconferência com Vorcaro e Nogueira em 2023.
As conversas também incluem referências internacionais: Martha Graeff cogitou convidar Ivanka Trump e o marido, Jared Kushner, para o Carnaval no Brasil. Em julho de 2024, Vorcaro relata encontro com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.
A CPMI frisou que o fato de um nome aparecer nas mensagens não significa que a pessoa seja investigada pela PF ou pela comissão. Vorcaro foi preso na terceira fase da Operação Compliance Zero, acusado de fraudes contra o sistema financeiro, corrupção e lavagem de dinheiro. As investigações apontam ainda tentativas de intimidar autoridades e jornalistas e de invadir sistemas da PF, do Ministério Público e da Interpol. No mesmo conjunto de mensagens enviadas à CPMI, Vorcaro relatou à namorada que estava sofrendo extorsão em Brasília — sem revelar a identidade do responsável.