A Anvisa aprovou a versão em comprimido do Wegovy, da Novo Nordisk. Com isso, o Brasil passa a ter o primeiro remédio oral à base de semaglutida para tratar obesidade e sobrepeso. A resolução foi publicada no Diário Oficial da União.
Na prática, o paciente pode trocar a injeção semanal feita com a caneta por um comprimido de 25 mg tomado uma vez por dia. É o primeiro agonista de GLP-1 em pílula liberado no país para essa finalidade.
A empresa fez o pedido de registro em 30 de janeiro. O preço ainda não foi definido, e a fabricante prevê que o produto chegue às farmácias no próximo trimestre.
Por que a dose do comprimido é bem maior
A semaglutida imita o GLP-1, hormônio que o intestino libera depois das refeições. Ele informa ao cérebro que o organismo já recebeu alimento, o que diminui a fome, e deixa o esvaziamento do estômago mais lento, o que faz a saciedade durar mais.
Tomada pela boca, a molécula enfrenta um obstáculo: grande parte dela é degradada no estômago antes de chegar à corrente sanguínea. Por isso a dose do comprimido diário é de 25 mg, contra 2,4 mg na injeção semanal de manutenção. O princípio ativo é o mesmo nas duas formas.
De acordo com a Anvisa, o tratamento começa com doses menores e avança de forma progressiva: 1,5 mg, depois 4 mg e 9 mg, até chegar à dose diária de manutenção de 25 mg. O comprimido deve ser tomado em jejum, com uma pequena quantidade de água, e o paciente precisa esperar pelo menos 30 minutos antes de comer, beber ou tomar outros medicamentos.
Resultado próximo ao da caneta
O principal estudo usado na aprovação foi publicado na revista científica The New England Journal of Medicine. Em 64 semanas, quem tomou o comprimido perdeu em média 13,6% do peso corporal. No grupo que recebeu placebo, a redução foi de 2,2%.
Segundo os autores do estudo, o desempenho se aproxima do observado com a versão injetável. A Novo Nordisk usa esse resultado para afirmar que, pela primeira vez, um comprimido alcança a mesma eficácia de uma injeção no tratamento do excesso de peso.
A agência explica que o registro se apoiou no estudo de fase 3 chamado OASIS 4, feito com adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades. Além da perda de peso superior à do placebo, o tratamento melhorou diversos marcadores de saúde cardiometabólica. O medicamento é indicado para esse público, como complemento a uma dieta saudável e à prática de atividade física.
A aprovação chega depois de a Anvisa ter liberado, em julho, cinco novas marcas injetáveis de semaglutida, em um mercado que se abriu à concorrência com o fim da patente da Novo Nordisk.
O que ainda falta para chegar ao paciente
Sem preço definido, não se sabe se a pílula vai custar mais ou menos que a caneta, e esse é o fator que deve pesar na decisão de quem já faz o tratamento. Até a chegada às farmácias, a única forma de semaglutida disponível para emagrecer continua sendo a aplicação semanal. Para a Anvisa, a nova apresentação traz mais flexibilidade a pacientes e profissionais de saúde, inclusive a possibilidade de transição entre as formas oral e injetável quando clinicamente apropriado, conforme a bula.
Na rede pública, o cenário também não muda por enquanto. O Wegovy injetável segue fora do SUS, que só o oferece em um projeto piloto da Novo Nordisk em centros como o Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre.
A fabricante ainda tem outro pedido na fila da agência. Em março, a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, liberou o Wegovy HD, versão injetável de 7,2 mg, e a Novo Nordisk ainda aguarda a análise da Anvisa para essa dose no Brasil.