Cultura

Cinema é para poucos: 42% querem cultura gratuita como prioridade dos próximos governos

Pesquisa Datafolha mostra 63% das classes A e B no cinema no último ano, contra 18% das D e E; preço é a maior barreira
Sala de cinema vazia com poltronas vermelhas e tela branca, simbolizando a falta de acesso gratuito à cultura

Mais acesso gratuito a shows, filmes, espetáculos e exposições é o que os brasileiros mais esperam das políticas públicas de cultura dos próximos governos: 42% apontam o tema como prioridade, segundo a 7ª Pesquisa Hábitos Culturais, divulgada nesta quarta-feira (14).

O levantamento do Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha, ouviu 2.448 pessoas de 16 a 65 anos em 137 municípios e expõe um direito previsto na Constituição que não chega igual a todos.

O preço define quem entra

O custo — somando ingresso e deslocamento — é o principal fator que afasta o público das atividades presenciais, citado por 35% dos entrevistados. Entre quem declara gastar com cultura, 46% desembolsam até R$ 100 por mês, 15% ficam entre R$ 151 e R$ 200 e 8% passam de R$ 400.

O efeito aparece com nitidez no recorte de classe. Nos últimos 12 meses, 63% dos brasileiros das classes A e B foram ao cinema, contra 18% das classes D e E — 45 pontos percentuais de diferença. Na participação em qualquer atividade cultural presencial, o placar é de 97% a 82%.

Para um terço dos entrevistados (33%), o problema é anterior ao bolso: simplesmente não há equipamento cultural na região onde moram.

“O acesso à cultura realmente ainda é bastante desigual, sobretudo quando observamos pela perspectiva socioeconômica ou até mesmo de níveis de escolaridade entre os brasileiros”, afirmou a coordenadora do Observatório da Fundação Itaú, Ana Maria Cardoso, em declaração reproduzida pela Agência Brasil. Ela ressalva que o quadro não indica menor apreço pela cultura entre quem tem menos renda ou escolaridade: “existem barreiras que vão além da subjetividade individual ou mesmo do gosto pessoal que interferem diretamente nesse acesso”.

A lista de demandas

Depois da gratuidade, a construção de novos museus, teatros e cinemas públicos é pedida por 32%. Outros 28% querem reforma, ampliação ou modernização dos espaços que já existem, e 26% cobram financiamento e incentivo à produção cultural independente. O apoio a iniciativas em favelas, periferias e comunidades tradicionais aparece com 22%, e a valorização e formação de artistas e profissionais do setor, com 21%.

Medo de assalto e de assédio pesa na decisão

Insegurança e violência formam o segundo maior fator de desânimo (30%), à frente de falta de horário (23%), cansaço (21%), distância dos eventos (19%), lotação (19%) e falta de transporte (16%). O medo de assalto ou furto na região dos eventos é citado por 47% dos entrevistados, e a ausência de policiamento no entorno dos espaços culturais, por 43%. Riscos no trajeto preocupam 29%.

A violência contra mulheres e o assédio dentro dos espaços culturais foram apontados por 27% — alta de 6 pontos percentuais em relação à edição anterior da pesquisa. Entre as mulheres, a preocupação chega a 38%; entre os homens, fica em 14%.

O recorte conversa com um cenário já mapeado em outro levantamento: 57% dos brasileiros mudaram a rotina por medo da violência, e 40,9% das mulheres deixaram de sair à noite.

Um direito que parte do público desconhece

A pesquisa também escancara um limite de informação. Embora 68% saibam que o acesso à cultura é garantido pela Constituição Federal, 32% desconhecem a garantia e 27% afirmam não saber o que significa ter direito à cultura. Para Cardoso, esse é um dos caminhos a avançar, ao lado da ampliação da oferta gratuita.

As 2.448 entrevistas foram presenciais e individuais, feitas entre 7 e 20 de julho de 2026 com moradores de todas as regiões do país, nas classes A, B, C e D/E.