Política

Vorcaro aprovou rede de 20 sites falsos para blindar o Master, mostram mensagens

Conversas com o "Sicário" citam robôs para viralizar notícias e remoção de reportagens sobre a mulher de Alexandre de Moraes
Daniel Vorcaro ao lado do distintivo da Polícia Federal, remetendo à investigação sobre sites falsos Banco Master

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro autorizou a criação de uma rede de 20 sites de notícias para fabricar repercussão favorável ao Banco Master e atacar desafetos, segundo mensagens obtidas pelo Poder360.

As conversas, trocadas entre 2024 e 2025 com Luiz Phillippi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, também registram pedidos de robôs para viralizar reportagens e a derrubada de publicações sobre a mulher do ministro Alexandre de Moraes.

Dez domínios “bons” e dez “ruins”

Em 31 de março de 2025, o operador descreveu a arquitetura do esquema ao dono do banco: “Todos esses domínios são nossos, pedi para criar 20 domínios, 10 bons e 10 ruins. Bons para soltarmos matérias boas e positivas, os ruins para soltarmos negativas para quando é para quem precisarmos”.

Os endereços foram batizados para imitar a credibilidade de veículos consolidados: jornalurbano.com se inspirava em Metrópoles e Terra, com pauta de curiosidades e milionários; globoeconomico.com prometia “tom mais sério” em economia; seuinvestidor.com mirava investidores iniciantes e o público de classe média. Havia ainda suarevista.com, de economia e fofocas, e o perfil jotainveste.com, moldado em contas de mercado financeiro.

Sicário dizia que a equipe trabalhava “até de madrugada pra soltar conteúdo negativo” e que todo texto passaria pelo crivo do empresário antes de ir ao ar. A resposta foi curta: “Manda brasa, vai soltando”.

Robôs contratados para viralizar

Em julho de 2024, Vorcaro pediu impulsionamento de reportagens sobre a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do Master pela Caixa Econômica Federal. “Coloquem robô, pode contratar o que for”, escreveu. Um dos textos sobre a transação, segundo o operador, chegou a ser replicado automaticamente por um robô.

A produção era calibrada para o buscador: os conteúdos recebiam palavras-chave para melhorar o ranqueamento, e a reprodução integral era evitada. “O Google entende que é cópia”, explicou Sicário. A frente de sites somava-se ao “Projeto DV”, em que influenciadores receberam até R$ 2 milhões para atacar o Banco Central. Nem tudo agradou: depois de questionar a origem de textos que considerou errados, o banqueiro mandou “segurar tudo”.

Reportagens sobre a mulher de Moraes saíram do ar

Em abril de 2025, Sicário encaminhou links de reportagens sobre a contratação do escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes, pelo Banco Master. No dia seguinte veio uma nova lista, identificada como “links derrubados”.

Entre os conteúdos retirados do ar estavam publicações do Diário do Grande ABC, do Agora Notícias Brasil e do Jornal Opção — esta última sobre a atuação do escritório em ações judiciais relacionadas ao banco.

A limpeza digital tinha preço. Em fevereiro de 2024, uma mensagem encaminhada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, trazia a cobrança de uma empresa que se dizia contratada para apagar registros no Jusbrasil e no Escavador, além de conteúdos sobre a festa de 15 anos da filha do empresário e um jantar do Lide. Sete links jornalísticos seguiam sem pagamento, e o remetente ameaçava recorrer à Justiça.

Sicário foi apontado pela Polícia Federal como líder da estrutura de monitoramento e intimidação ligada ao banqueiro na operação Compliance Zero — a mesma engrenagem que recebia R$ 1 milhão por mês para coagir jornalistas e agentes do Banco Central. Ele morreu em 4 de março de 2026, após tentar suicídio em uma cela da PF em Belo Horizonte.