Novos relatórios da Polícia Federal enviados ao Supremo Tribunal Federal apontam que o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) teve “atuação direta” na estratégia financeira do Banco de Brasília (BRB).
Segundo os documentos, obtidos pelo g1, essa engenharia viabilizou a tentativa de compra do Banco Master, de Daniel Vorcaro, entre 2024 e 2025. Para a PF, Ibaneis “não se limitou ao exercício regular de suas prerrogativas institucionais”.
Decisões estratégicas passavam por ele antes da governança
Para os investigadores, o então governador funcionava como uma instância prévia de aprovação dentro de um banco público. “As comunicações demonstram que decisões estratégicas relevantes eram submetidas previamente à sua apreciação, antes mesmo de deliberação pelos órgãos formais de governança, evidenciando centralização decisória e interferência política direta na condução da instituição financeira pública”, escreveu a Polícia Federal.
O relatório descreve quatro frentes de atuação direta do ex-governador no processo e se apoia em mensagens extraídas dos celulares de dois personagens centrais do caso: Paulo Henrique Costa, que presidia o BRB à época das transações, e Daniel Vorcaro, dono do Master até a liquidação do banco. Os dois estão presos.
De uma oferta de ações à mesa de negociação em Zurique
Costa foi preso em abril, em nova fase da Operação Compliance Zero, e são justamente as conversas recuperadas em seu aparelho que agora sustentam a leitura da PF sobre o papel político na operação.
A linha do tempo montada pelos investigadores começa em outubro de 2024, quando o BRB levou ações ao mercado para captar até R$ 1 bilhão e ampliar o capital social. Para a PF, o movimento integrava as “etapas preparatórias para a consolidação futura” da aquisição do Master. As tratativas diretas só começariam três meses depois, em janeiro de 2025, quando Ibaneis, Vorcaro e Paulo Henrique Costa se reuniram em Zurique, na Suíça — encontro que, segundo os novos relatórios, deu início às negociações pela compra do Master.
O rastro bilionário das carteiras de crédito
Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master. No intervalo de um ano, segundo relatórios anteriores da própria PF, o volume alcançaria R$ 16,7 bilhões.
Em um dos relatórios, a PF conclui ainda que o Banco Master passou a integrar, de forma indireta, a estrutura acionária do BRB, mediante o uso de fundos de investimento — identificados como Borneo, Verbier e Delta — estruturados, segundo a corporação, com o propósito de ocultar o beneficiário final e evitar a caracterização formal de controle ou participação qualificada.
Essas mesmas operações viraram objeto de uma auditoria forense que o próprio BRB entregou à PF, com pedido de medidas criminais caso as irregularidades fossem confirmadas. Meses depois de autorizada a compra das carteiras, Ibaneis assinou lei entregando nove imóveis públicos do DF ao banco para ajudar a recompor o rombo deixado pela operação.
Ao g1, o advogado de Ibaneis, Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, afirmou que ainda está lendo o relatório antes de se manifestar sobre seu conteúdo. As defesas de Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa não se manifestaram.