Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, presta depoimento à Polícia Federal nesta quinta-feira (27), por videoconferência, com início previsto para as 10h.
A oitiva integra a investigação sobre a relação dele com dois ex-supervisores do Banco Central suspeitos de receber vantagens indevidas para favorecer a instituição antes da liquidação do banco.
O depoimento ocorre após operação da PF que teve Vorcaro como alvo e depois que as negociações por um acordo de colaboração premiada não avançaram.
Servidores do BC citam pagamentos ligados a Vorcaro
O foco da investigação é a atuação dos ex-supervisores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana, apontados como próximos de Vorcaro durante a crise de liquidez do Banco Master. Segundo a Polícia Federal, os dois teriam recebido vantagens financeiras para atuar em favor do banqueiro em discussões internas sobre fiscalização e socorro financeiro.
Ouvido pela PF, Bellini afirmou que foi procurado em 2023 por uma pessoa ligada ao advogado Leonardo Palhares, que lhe ofereceu uma proposta envolvendo projetos sociais. Ele disse ter recebido duas parcelas de R$ 500 mil e, depois, pagamentos mensais por meio de uma empresa própria. Já Paulo Sérgio declarou ter vendido uma propriedade rural em Guaxupé (MG) por R$ 4,5 milhões e afirmou só ter descoberto depois que o comprador tinha ligação familiar com Vorcaro.
“5 bi pode evitar estrago de 58 bi”
Uma mensagem enviada por Paulo Sérgio a Vorcaro em abril de 2025, analisada pela PF, tratava de uma possível linha de liquidez do Fundo Garantidor de Créditos: “o Ailton achou muito boa, ou seja, 5 bi pode evitar estrago de 58 bi”. Segundo o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, a conversa buscava evitar impactos maiores de uma eventual liquidação do banco.
Aquino também relatou à PF que os dois servidores insistiram para que ele recebesse Vorcaro em novembro de 2025, quando o banqueiro apresentou uma proposta de aporte de investidores árabes para tentar impedir o fim das atividades do Master.
Carteiras de crédito inexistentes e fusão frustrada com o BRB
As suspeitas ganharam força a partir de apurações do próprio Banco Central e de depoimento do diretor Ailton de Aquino. Segundo ele, as dúvidas sobre o Banco Master surgiram no início de 2025, quando a instituição, mesmo com dificuldades de liquidez, seguia fazendo cessões de crédito bilionárias ao Banco de Brasília (BRB). Uma equipe do BC concluiu depois que parte das carteiras apresentadas pelo banco não existia — achado que levou o caso ao Ministério Público Federal e, na sequência, à PF.
A investigação que chega agora à oitiva de Vorcaro tem origem em uma sindicância aberta pelo próprio Banco Central no fim de 2025, apuração interna que, repassada à PF, tornou-se o alicerce das prisões de março.
Paulo Sérgio e Bellini Santana, cujas condutas estão no centro do depoimento desta quinta, são investigados desde março pela CGU por supostamente orientar Vorcaro em processos junto ao regulador e vazar informações sigilosas em troca de propina.
A oitiva desta quinta ocorre enquanto Vorcaro está preso preventivamente desde março, quando o STF decretou sua segunda detenção, desta vez com indícios de que ele chefiava uma organização criminosa com braço armado dentro do Banco Central. Antes disso, ele já havia sido preso na primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, mas foi solto dias depois por decisão do TRF-1.