O banqueiro Daniel Vorcaro, preso desde março por fraude bilionária no Banco Master, disse ao gabinete do ministro do STF André Mendonça que a delação premiada que pretendia fechar mirava apenas pessoas do “núcleo do atual governo”.
O depoimento, prestado nesta semana a um juiz auxiliar a pedido da própria defesa, foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Vorcaro nada disse sobre seus laços com outros políticos nem sobre o financiamento do filme “Dark Horse”.
O que Vorcaro disse — e o que evitou dizer
Segundo o depoimento, ao qual o Tropiquim teve acesso pela reportagem do Estadão, o ato foi motivado por um pedido urgente da defesa de Vorcaro, que alegou sofrer “graves intimidações”. O gabinete do ministro André Mendonça confirmou que se tratou de “ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar”.
A omissão chama atenção porque, em março, quando sinalizou pela primeira vez a intenção de delatar, o advogado do banqueiro prometeu que ele “não pouparia ninguém” — promessa que contrasta com o escopo restrito apresentado agora.
O silêncio sobre o Dark Horse também é notável: o STF já autorizou a Polícia Federal a investigar repasses do banqueiro à cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL), um dos temas que ele optou por não abordar.
Nesta quarta-feira (2), a PGR pediu o arquivamento das denúncias feitas por Vorcaro, afirmando que ele não apresentou provas e fez “leituras pessoais e desconectadas do devido processo legal” até mesmo sobre sua própria prisão. A defesa do banqueiro já havia protocolado uma proposta de delação em 15 de junho, rejeitada pelo Ministério Público por falta de elementos novos sobre o caso.
A defesa da venda ao BRB
No depoimento, Vorcaro também defendeu a tentativa de fusão do Banco Master com o BRB (Banco de Brasília), classificando o negócio como “benéfico” e afirmando ter tomado medidas para evitar que a operação fracassasse.
A tentativa, no entanto, já havia sido detalhada quando o Banco Central barrou a fusão por falta de documentos de viabilidade econômica, na ocasião da segunda prisão de Vorcaro.
Em abril, uma nova fase da Operação Compliance Zero prendeu o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, acusado de permitir negócios com o Master sem lastro e sem seguir práticas de governança. O banco estima que ao menos R$ 8,8 bilhões dos créditos comprados do Master são títulos inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação — “crédito podre” que pode gerar um rombo no patrimônio da instituição.
O governo do Distrito Federal afirma conseguir recuperar R$ 2,2 bilhões por outras vias, mas precisaria de um empréstimo para cobrir os R$ 6,6 bilhões restantes.