Economia

Guerra no Irã completa seis meses e eleva preços de petróleo e alimentos

Bolsas globais bateram recorde apesar do conflito, mas dólar, ouro e títulos dos EUA tiveram comportamento instável
Multidão iraniana com bandeiras e barris de petróleo ilustram impacto da guerra no Irã seis meses após início do conflito

A guerra iniciada com o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, em 28 de fevereiro, completa seis meses nesta sexta-feira (28) sem sinais de trégua.

O conflito restringiu a passagem de petróleo pelo Estreito de Ormuz, elevou o Brent a mais de US$ 120 por barril em abril e pressionou os preços de diesel, querosene de aviação e alimentos em todo o mundo.

Estreito de Ormuz trava o mercado de energia

Desde o início do conflito, as restrições à navegação pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de petróleo do planeta, derrubaram a produção dos países do Golfo e reduziram o volume de cargas em circulação. Na primeira semana de conflito, o bloqueio já havia suspendido cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo e gás, o ponto de partida para a escalada que levou o Brent a ultrapassar US$ 120 por barril em abril.

O diesel sentiu uma pressão ainda maior. Além da queda das exportações do Golfo, ataques ucranianos a refinarias russas reduziram a oferta do combustível no mercado internacional. O querosene de aviação também foi afetado no início da guerra, mas o aumento da produção e das exportações das refinarias americanas ajudou a aliviar o abastecimento nos meses seguintes.

Bolsas resistem puxadas pela inteligência artificial

Apesar do choque na energia, as bolsas globais seguiram avançando. O índice mundial de ações da MSCI, que reúne 47 países, atingiu neste mês recorde de US$ 105 trilhões — quase US$ 7 trilhões a mais, alta de 9%, desde o início da guerra. O forte volume de investimentos em empresas de inteligência artificial sustentou boa parte desse avanço, compensando perdas em outros setores e nos mercados do Golfo.

Alimentos e ativos de proteção sob pressão

A redução dos embarques por Ormuz também afetou o comércio de fertilizantes, insumo essencial para a produtividade agrícola. Desde os primeiros dias do conflito, o fechamento do estreito — por onde passa um terço do suprimento global de fertilizantes — já prenunciava o impacto nos preços dos alimentos. O problema se somou aos efeitos do El Niño e às interrupções no transporte de grãos provocadas pela guerra na Ucrânia.

Em maio, a FAO já alertava para a escalada dos preços globais de alimentos, pressão que não parou de crescer: segundo a Reuters, em julho o índice da organização atingiu o maior nível em mais de três anos. O JPMorgan estima que, mesmo sem os efeitos da guerra, um El Niño forte poderia somar cerca de 0,7 ponto percentual à inflação global de alimentos no pico do impacto — que tende a pesar mais sobre Ásia, América Latina e África, onde a alimentação consome parcela maior da renda familiar.

Entre os ativos de proteção, o comportamento também variou: o dólar acumula alta de 1,4% frente a uma cesta de moedas, enquanto os títulos do governo dos Estados Unidos perderam cerca de 3,5% com a alta da inflação e as expectativas para os juros americanos. O ouro caiu quase 25% até julho, mas disparou mais de 15% somente neste mês.