A guerra no Irã levou os maiores produtores de petróleo do Golfo Pérsico a acelerar planos para driblar o Estreito de Ormuz, principal rota de exportação da região.
Segundo o The New York Times, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque investem bilhões de dólares em oleodutos, terminais e áreas de armazenamento para evitar a passagem.
Os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, reduziram o fluxo pelo estreito de 20 milhões para cerca de 3,7 milhões de barris de petróleo por dia.
Quando o Irã fechou o Estreito de Ormuz em março, deixando 20 mil marinheiros presos no Golfo e transformando a rota em zona de guerra, os países produtores perceberam que depender de uma única passagem era um risco que não podiam mais aceitar. Nos primeiros dias do bloqueio, Arábia Saudita, Emirados, Kuwait e Iraque já haviam cortado 6,7 milhões de barris por dia de produção, o baque que tornou urgente a busca por rotas alternativas.
Emirados e Arábia Saudita lideram expansão de oleodutos
Em Fujairah, cidade portuária dos Emirados voltada para o Golfo de Omã, equipes trabalham 24 horas por dia na construção de um segundo oleoduto, paralelo à estrutura já existente. O sistema leva petróleo dos campos terrestres de Abu Dhabi até a costa sem passar pelo estreito, e o novo projeto pretende dobrar a capacidade da rota para 3,6 milhões de barris por dia.
A estatal ADNOC também anunciou investimento de US$ 8,2 bilhões (R$ 42,5 bilhões) na expansão dos negócios de gás natural e avalia construir um terminal de exportação de gás natural liquefeito na costa leste do país, fora do alcance do estreito.
Na Arábia Saudita, a Saudi Aramco acelera a expansão do Oleoduto Leste-Oeste, construído durante a guerra entre Irã e Iraque, na década de 1980, que percorre 1.201 quilômetros até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Desde o início dos ataques dos EUA e de Israel, a estrutura já redirecionou cerca de 7 milhões de barris por dia, e o país trabalha para somar mais 1 milhão a 2 milhões de barris à capacidade.
Kuwait, Iraque e Jordânia também correm contra o tempo
O Kuwait negocia com a Arábia Saudita e outros países árabes a construção de um oleoduto até portos no Mar Vermelho ou em Omã. Iraque e Jordânia retomaram planos parados havia anos para erguer uma linha capaz de transportar até 1 milhão de barris por dia até o porto de Aqaba, enquanto Bagdá também tenta reconstruir um duto danificado que ligaria os campos de Kirkuk à costa mediterrânea da Síria.
Novas rotas trazem riscos próprios
Ao redirecionar parte do transporte para o Mar Vermelho, a Arábia Saudita passa a depender mais de uma região onde o grupo rebelde houthi, do Iêmen, tem atacado embarcações. Na terça-feira (11), seis pessoas morreram quando os houthis atingiram um navio na região.
Os produtores do Golfo também ampliam estoques de petróleo em países como Coreia do Sul, Japão e Índia, a milhares de quilômetros de distância. A estratégia funciona como um seguro: se Ormuz for fechado novamente, parte do petróleo já estará armazenada do outro lado da passagem e poderá ser vendida sem depender de uma nova travessia.
Para Carole Nakhle, presidente-executiva da consultoria Crystol Energy, os países do Golfo não vão conseguir abandonar completamente o estreito: “Eles definitivamente precisam do Estreito de Ormuz porque ele oferece muitas vantagens e a infraestrutura já está instalada”. Segundo ela, porém, a crise expôs um erro estratégico: “Foi tolice colocar toda a confiança em Ormuz”. Especialistas já haviam alertado que mesmo um cessar-fogo não normalizaria o tráfego pelo estreito tão cedo, argumento que reforça por que o Golfo aposta em infraestrutura permanente.