A OpenAI incentivou empresas a testarem a semana de trabalho de quatro dias, argumentando que a IA logo tornaria essa jornada reduzida viável sem cortar salários. Um ex-funcionário, porém, revelou à BBC que a própria empresa nunca aplicou a mudança internamente.
Segundo o relato, a rotina na sede da OpenAI era marcada por reuniões de crise frequentes, trabalho nos fins de semana e avaliações de desempenho rigorosas, que resultavam em demissões repentinas de colegas.
O caso expõe uma contradição que se repete em outras gigantes de tecnologia: enquanto executivos da Meta, do Google e da Anthropic prometem que a IA vai liberar tempo dos trabalhadores, jornadas de até 90 horas semanais se tornaram comuns dentro dessas empresas.
Sprints que ultrapassam 90 horas
Enquanto a OpenAI defendia publicamente, em relatório divulado em abril, que empresas deveriam testar a semana de quatro dias sem reduzir salários, o cotidiano interno seguia outro roteiro. Profissionais de tecnologia ouvidos pela BBC relataram que, na OpenAI e na Anthropic, os períodos de sprint — fase intensa que antecede o lançamento de um produto — podem se estender por semanas e ultrapassar 90 horas de trabalho em apenas sete dias.
O ex-funcionário da OpenAI afirmou ter trabalhado ao menos 70 horas semanais durante sua passagem pela empresa, número bem acima do praticado antes na área de tecnologia, historicamente associada a um expediente de escritório mais tradicional, das 9h às 17h.
Meta: trabalho tratado como urgência permanente
Na Meta, funcionários atuais e ex-funcionários descrevem terem sido realocados abruptamente para equipes de IA neste ano, prática apelidada internamente de “recrutamento” porque não havia opção de recusa. A movimentação é consistente com o plano da companhia de cortar até 20% do quadro de funcionários para financiar a expansão em inteligência artificial — o mesmo investimento que hoje sobrecarrega quem ficou. Nessas equipes, jornadas até tarde da noite e nos fins de semana se tornaram rotina, com trabalhadores relatando sensação constante de “plantão”.
A IA promete alívio, mas aumenta a carga real
Um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley acompanhou centenas de funcionários de uma empresa de tecnologia americana por oito meses e constatou que, após adotar ferramentas de IA, eles passaram a trabalhar em ritmo mais acelerado, assumir mais tarefas e estender a jornada diária — o oposto do que promete o discurso corporativo.
Para Neil Thompson, especialista em inovação do MIT, é raro que empresas realmente reduzam a carga de trabalho após adotar IA: parte do tempo economizado acaba preenchida com novas demandas, seja por exigência do empregador, seja porque o próprio funcionário sente que precisa provar seu valor.
O padrão também aparece nos discursos públicos dos CEOs de IA. Meses atrás, Dario Amodei, da Anthropic, e Sam Altman, da OpenAI, suavizaram previsões antes alarmistas sobre desemprego em massa causado pela tecnologia, mesmo enquanto jornadas internas seguiam se estendendo. Amin Shali, que deixou o Google em maio citando o impacto da IA em sua rotina, resume a contradição: “A IA deveria estar fazendo tanto por nós agora, que muito mais pessoas deveriam ter pelo menos melhor saúde e melhor qualidade de sono.”