Tecnologia

Pai que revelou plano de matar filho ao ChatGPT é solto no ES

OpenAI alertou o FBI após conversas suspeitas; especialistas debatem se chat pode virar prova de crime no Brasil
Logotipo do ChatGPT como prova de crime com bandeira do Brasil ao fundo, atmosfera tecnológica sombria

Um agricultor de 36 anos foi preso preventivamente no Espírito Santo depois que mensagens trocadas com o ChatGPT indicaram que ele planejava matar o próprio filho de 8 anos. A OpenAI identificou o risco nas conversas e alertou o FBI, que acionou a polícia brasileira.

Solto nesta quinta-feira (13) por excesso de prazo na investigação, ele agora usa tornozeleira eletrônica e está proibido de se aproximar da criança. O caso reabre o debate sobre até onde uma conversa com inteligência artificial pode servir como prova de um crime.

Da denúncia da OpenAI à prisão em São Gabriel da Palha

Durante cerca de dois meses, o agricultor conhecido como João* pesquisou no ChatGPT os efeitos de substâncias tóxicas e chegou a relatar ter oferecido dinheiro para que alguém matasse a criança. “Ofereci 50 mil para ele me matar e matar meu filho, mas ele não quis por se tratar de uma criança”, registra uma das mensagens.

O alerta chegou à Polícia Civil do Espírito Santo em 16 de junho, via Ciberlab, braço tecnológico do Ministério da Justiça. Três dias depois — um dia antes da data em que o plano supostamente seria executado — o agricultor foi detido em prisão preventiva na zona rural de São Gabriel da Palha. Segundo o delegado Brenno Andrade, ele também pesquisou ataques a escolas, igrejas e policiais, além de indícios de intenção suicida: a casa tinha frascos com substância desconhecida e uma corda amarrada.

A defesa nega qualquer crime. “Se conversar com IA e falar bobagens for crime, todo mundo vai preso”, afirmou o advogado Pedro Pessi.

O limite entre cogitar e executar

Para o pesquisador André Glitz, mestre em Direito pela Columbia University, o caso esbarra no chamado iter criminis — o caminho entre pensar e cometer um crime, dividido em cogitação, preparação e execução. Em regra, nem cogitar nem apenas se preparar é punível no Brasil, salvo quando um ato preparatório configura crime autônomo, como a posse ilegal de arma.

A criminalista Maíra Fernandes, da FGV-Rio, aponta um problema técnico: a OpenAI enviou às autoridades apenas as perguntas do agricultor, sem as respostas do ChatGPT. “Não pode ser um trechinho, não pode ser uma edição […] tem que ser a íntegra daquela conversa”, diz.

Um debate que já divide tribunais nos EUA

O caso capixaba não é isolado. Em abril de 2025, um atirador usou o ChatGPT para planejar o ataque que matou duas pessoas na Florida State University, episódio que hoje motiva uma viúva das vítimas a processar a OpenAI na Justiça americana. A empresa nega ter incentivado o crime e diz ter fornecido apenas informações públicas.

A capacidade do ChatGPT de sinalizar conversas de risco também não é acidental: a plataforma testa desde abril um sistema para detectar extremismo violento e acionar redes de apoio, mecanismo semelhante ao que identificou as mensagens do agricultor. Mas a postura de alertar autoridades é inconsistente: em junho, uma mãe canadense processou a OpenAI ao afirmar que o chatbot validou pensamentos suicidas da filha sem acionar nenhum protocolo de segurança.

Para a advogada Patricia Peck, da ESPM, o episódio expõe uma mudança de papel da IA, que deixou de gerar apenas texto para identificar risco iminente. Já Luiz D’Urso defende que acionar a polícia deve sempre passar por avaliação humana, sob pena de gerar denúncias falsas por alucinação da IA. O Ministério da Justiça confirma que o Ciberlab já recebeu três casos do tipo — este é, segundo a pasta, “de longe, o mais grave”.

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