O governo de Donald Trump avalia liberar a venda online de fuzis nos Estados Unidos, com entrega direta na residência do comprador e checagem de antecedentes feita apenas pela internet.
A proposta está entre 34 mudanças propostas pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) e preocupa especialistas, que veem risco de ampliar o tráfico de armas para facções brasileiras como PCC e Comando Vermelho (CV).
Como as mudanças podem afetar o tráfico
As alterações revisam regras do governo de Joe Biden e incluem o fim da obrigatoriedade de comparecimento a lojas físicas para verificação de antecedentes na compra de fuzis, inclusive modelos como o AR-15.
“As mudanças na regulamentação de armas que o governo Trump está promovendo podem, sim, afetar o tráfico internacional”, diz à BBC News Brasil John Lindsay-Poland, coordenador do projeto Stop US Arms to Mexico. Para ele, o comprador poderia ser “qualquer pessoa que não tenha uma razão legítima para adquirir a arma”.
Em maio, os EUA classificaram o PCC e o CV como organizações terroristas, decisão criticada pelo governo de Lula. Lindsay-Poland avalia que o rótulo não deve alterar o combate ao tráfico, já que “o principal problema é o tamanho, a permissividade e o caráter militarizado do mercado civil de armas” americano.
Rotas de entrada no Brasil
Fuzis chegam ao país escondidos em mercadorias comuns — como um AK-47 encontrado dentro de um forno em Viracopos — ou pela fronteira com o Paraguai, onde a PRF apreendeu recentemente 26 fuzis, a maior apreensão de sua história.
Matt Schroeder, do Small Arms Survey, explica que organizações usam pessoas sem antecedentes criminais para comprar armas legalmente nos EUA antes de exportá-las de forma ilegal, e afirma que o afrouxamento das vendas domésticas tende a ter impacto limitado no tráfico externo.
Fábricas clandestinas e flexibilização no Brasil
A apreensão de fuzis no Brasil saltou 167% desde 2021, somando 2.152 unidades em 2025, segundo o Instituto Sou da Paz. Bruno Langeani, consultor da entidade, questiona se a designação terrorista trará sanções às lojas da Flórida ligadas a rastreamentos de armas: “Se não tiver sanção para esses grandes players, vai ficar muito claro que essa é uma medida mais de interesse político-eleitoral.”
Para ele, parte do abastecimento das facções hoje vem de fábricas clandestinas nacionais — consideradas pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública a “principal dor de cabeça atual” no combate ao tráfico — e da flexibilização promovida no governo de Jair Bolsonaro, que ampliou o número de fuzis que CACs podiam comprar. Mesmo revogada em 2023, a regra permitiu que armas adquiridas na época não precisassem ser devolvidas.
A discussão ocorre em meio a um contexto diplomático já tenso: como o Itamaraty já havia alertado, a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pode abrir espaço para ações extraterritoriais dos EUA contra o Brasil. A rotulação também já vem sendo usada pelo governo Trump como base jurídica para sancionar brasileiros por lavagem de dinheiro ligada às facções.
