Oito em cada dez famílias brasileiras (81,6%) seguiam endividadas em junho, aponta a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta terça-feira (14) pela Confederação Nacional do Comércio (CNC).
O índice repetiu o patamar de maio e interrompeu a sequência de altas dos meses anteriores. A fatia de famílias com contas em atraso também se manteve estável, em 29,9%.
Composição da dívida melhora mesmo com números estáveis
Apesar da estabilidade nos indicadores principais, a CNC identificou uma melhora na qualidade do endividamento. Entre maio e junho, a parcela de famílias que se consideram pouco endividadas subiu de 33,3% para 34,2%, enquanto o grupo que se diz muito endividado cresceu em ritmo mais discreto, de 17% para 17,2%. A entidade pondera que essa é uma percepção subjetiva do consumidor, e não um indicativo direto de superendividamento.
Outro avanço foi a redução do tempo médio de atraso nas contas, que caiu para 64,8 dias. A proporção de famílias inadimplentes há mais de 90 dias também recuou, para 48,9% — o menor nível do ano. O comprometimento médio da renda com dívidas ficou em 29,3%, e um terço das famílias (33,3%) mantém financiamentos com prazo superior a um ano, o que ajuda a aliviar o valor das parcelas mensais.
Renda baixa concentra o maior peso das dívidas
O retrato muda conforme a faixa de renda. Entre famílias que ganham até três salários-mínimos, 84,7% estão endividadas, 38,3% têm contas em atraso e 17,6% dizem não ter como pagar — os piores índices da pesquisa. Já entre as famílias com renda acima de dez salários-mínimos, o endividamento cai para 71,4%, a inadimplência para 15,4% e apenas 5% admitem dificuldade para quitar as dívidas.
Para a CNC, a melhora no perfil das dívidas está ligada aos primeiros meses do Desenrola 2.0, programa federal de renegociação lançado em maio, além do avanço da renda média das famílias e do maior controle da inflação. Nesse ponto, o IPCA de junho recuou para 0,16%, ante 0,58% em maio, o que ajuda a preservar a capacidade de pagamento dos consumidores.
O cenário, porém, contrasta com o lado bancário: em maio, no início do Desenrola 2.0, o Banco Central registrou a maior taxa de inadimplência de crédito desde 2011, de 4,7%. A própria CNC reconhece que a melhora ainda é frágil e projeta que tanto o endividamento quanto a inadimplência das famílias devem voltar a crescer nos próximos meses, recomendando cautela apesar dos sinais positivos.
