Na madrugada de 11 de junho, policiais rodoviários encontraram 43 cubanos carregando malas no acostamento da BR-401, em Roraima — alguns sem comer, doentes, abandonados por coiotes após cruzar clandestinamente a fronteira com a Guiana.
Não era caso isolado. Só até abril de 2026, 13 mil cubanos pediram refúgio no Brasil, segundo o OBMigra. Desde 2025, Cuba ultrapassou a Venezuela como principal origem de solicitantes de refúgio no país.
Por rotas que custam mais de US$ 10 mil por pessoa, milhares fogem de um país em colapso energético, com apagões de mais de 30 horas seguidas, economia destruída e turismo em queda livre.
A rota: avião, estrada de terra e barco clandestino
Como a Guiana não exige visto de cubanos, milhares têm voado de Havana a Georgetown com escalas em países como a República Dominicana. De lá, percorrem até 20 horas de estrada — boa parte de terra — até Lethem, na fronteira com o Brasil, onde coiotes os aguardam.
A travessia pelo rio Tacutu, que separa Lethem de Bonfim (RR), é feita de barco de forma irregular. Do outro lado, veículos superlotados seguem em alta velocidade até Boa Vista, onde os migrantes formalizam o pedido de refúgio.
O custo total desde Cuba ultrapassa US$ 10 mil (cerca de R$ 51 mil). Só a van de Georgetown a Lethem custa 1.250 dólares — cinco vezes mais do que o cobrado de outras nacionalidades. A travessia pelo rio sai por mais 180 dólares.
A ironia é que a lei brasileira permite ao estrangeiro pedir refúgio diretamente na fronteira, sem necessidade de atravessadores. Mas pesquisadores e organizações de apoio apontam que essa informação simplesmente não chega a Cuba.
“Eu não consigo entender como não repassam entre eles que não é necessário passar por esses grupos de contrabando e tráfico de pessoas”, diz Marcia Maria de Oliveira, pesquisadora de migrações da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
Cuba em colapso: sem luz, sem petróleo, sem turistas
A crise cubana se aprofundou em camadas. O colapso das usinas termelétricas impõe apagões de mais de 30 horas seguidas. Com a captura de Nicolás Maduro e as ameaças de Trump a países que enviem petróleo à ilha, Cuba perdeu seu maior fornecedor energético.
O turismo, principal fonte de receita, desabou: de 4,7 milhões de visitantes em 2018 para apenas 1,8 milhão em 2025. Em paralelo, a rota para os EUA foi fechada com o endurecimento migratório de Trump e o fim do acordo de vistos com a Nicarágua em fevereiro de 2026.
O fechamento do corredor nicaraguense — que permitia voo direto de Havana a Manágua e posterior entrada terrestre no México rumo aos EUA — redirecionou o fluxo para a Guiana e, de lá, ao Brasil.
Tren de Aragua e coiotes: uma fronteira dominada pelo crime
Os cubanos não chegam a uma fronteira neutra. O Tren de Aragua domina rotas de tráfico e exploração de imigrantes em Roraima há quase uma década, criando o ecossistema criminal em que as redes de coiotes operam — e do qual os recém-chegados raramente conseguem se desvencilhar.
Thaisa Freitas, do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados em Roraima, alerta que as rotas irregulares “expõem as pessoas a diferentes riscos de proteção, como condições inseguras de transporte, endividamento e situações de exploração”.
Brasil como escala, não destino
Menos da metade dos cubanos atendidos nos centros de acolhida de Boa Vista pretende ficar no Brasil, segundo pesquisadores da UFRR. A maioria mira países hispanófonos como Argentina e Uruguai — ou usa o refúgio brasileiro como trampolim para o Canadá, solicitando reassentamento após três meses no país.
A Operação Acolhida, criada em 2018 especificamente para venezuelanos em Roraima, não foi adaptada para absorver o novo fluxo. O Ministério da Justiça não respondeu sobre eventual extensão do programa aos cubanos.
Há sinais tímidos de mudança: a PRF registra aumento de cubanos usando o posto oficial de Bonfim para pedir refúgio sem coiotes. Para o agente Isaias Magalhães, pode estar chegando a Cuba a informação de que “o Brasil não é como os EUA” — e que é possível ser acolhido legalmente na fronteira.
