A OpenAI saiu vitoriosa do processo movido por Elon Musk e manteve intactos seus planos para um dos maiores IPOs da história — com avaliação de US$ 852 bilhões. Na segunda-feira (18), um júri federal de nove pessoas em Oakland, na Califórnia, rejeitou as acusações em menos de duas horas.
O veredicto foi técnico: os jurados concluíram que Musk esperou tempo demais para abrir o processo e perdeu o prazo legal. Mas três semanas de julgamento expuseram os bastidores turbulentos do Vale do Silício e reabriram o debate sobre quem, de fato, controla o futuro da inteligência artificial.
Da missão humanitária ao campo de batalha bilionário
Musk acusava a OpenAI, Sam Altman e o cofundador Greg Brockman de terem abandonado o objetivo original da empresa: operar sem fins lucrativos e desenvolver IA em benefício da humanidade. Altman rebateu afirmando que Musk queria enfraquecer a OpenAI para favorecer sua própria empresa de inteligência artificial, a xAI.
Durante o julgamento, foram apresentados e-mails, anotações pessoais e mensagens privadas constrangedoras. Algumas trocas entre Altman e um ex-executivo da OpenAI chegaram a virar memes e paródias musicais nas redes sociais — um espetáculo público que desgastou a imagem de ambos os lados.
As contradições de Musk ficaram ainda mais nítidas quando ele admitiu em tribunal que o Grok, seu sistema rival ao ChatGPT, foi treinado com tecnologia da própria empresa que ele acusava de trair a humanidade. Veja o que essa admissão revela sobre a estratégia de Musk.
No banco das testemunhas, o próprio Altman relatou que Musk chegou a exigir 90% de participação na OpenAI antes de abrir o processo — detalhe que colocou em xeque a narrativa do bilionário como defensor da missão original da empresa. Entenda o que essa exigência significou para o caso.
O processo ainda trouxe à tona detalhes sobre a saída temporária de Altman do conselho da OpenAI em 2023. Ex-membros do conselho, como Helen Toner e Tasha McCauley, afirmaram ter tido preocupações sobre a sinceridade do executivo — e testemunhas chegaram a chamá-lo diretamente de desonesto durante as audiências.
Recurso, protestos e o futuro das big techs da IA
Musk anunciou que vai recorrer da decisão e atacou publicamente a juíza Yvonne Gonzalez Rogers na rede X, chamando-a de “juíza ativista terrível” e acusando-a de criar um precedente perigoso. Foi sua segunda grande derrota judicial em menos de dois meses.
Do lado de fora do tribunal, manifestantes se reuniram com frequência durante o processo, criticando tanto Musk quanto Altman. Cartazes afirmavam que os verdadeiros prejudicados são as pessoas comuns, afetadas por uma indústria controlada por bilionários desconectados da realidade.
Para Sarah Kreps, diretora do Instituto de Política Tecnológica da Universidade Cornell, o julgamento tornou evidente uma falha estrutural: o futuro da IA ainda depende de um grupo muito pequeno de empresários poderosos e de rivalidades pessoais. “Há uma desconexão maior entre as pessoas que desenvolvem esses sistemas e aquelas que terão de viver e trabalhar com eles”, afirmou.
Tanto a OpenAI quanto a SpaceX — empresa integrada à xAI — planejam IPOs nos próximos anos. A Anthropic, criada por ex-líderes da OpenAI, também prepara sua oferta pública. Para o professor Carl Tobias, da Faculdade de Direito da Universidade de Richmond, a exposição dos conflitos internos pode gerar “consequências difíceis até de prever”. “Mas a inteligência artificial deve continuar avançando, mesmo que não seja liderada pela OpenAI”, concluiu.
