Uma pesquisa publicada nesta segunda-feira (4) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences revelou a trajetória histórica de um dos fenômenos geofísicos mais impactantes para a tecnologia espacial: a Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS).
O estudo, liderado por cientistas da Espanha, indica que a anomalia surgiu no Oceano Índico após o ano 1100 e migrou lentamente para oeste — atravessando a África até alcançar a América do Sul. O Brasil está no centro da região afetada.
Por que a AMAS ameaça satélites e astronautas
O campo magnético terrestre funciona como um escudo que protege o planeta da radiação cósmica e das partículas solares. Sobre a América do Sul e o Atlântico Sul, esse escudo é significativamente mais fraco — e as consequências são diretas para a tecnologia espacial.
Satélites que cruzam a área recebem doses maiores de radiação, o que pode causar falhas em componentes eletrônicos e interromper missões. Astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional também ficam mais expostos ao atravessar a região. Nos últimos 200 anos, o campo magnético como um todo perdeu intensidade — declínio que coincide com o crescimento da anomalia sobre o Atlântico Sul.
Argila cozida como arquivo magnético do planeta
Para reconstruir a história da AMAS, a equipe liderada pelas pesquisadoras Miriam Gómez-Paccard e F. Javier Pavón-Carrasco analisou mais de 250 fragmentos arqueológicos de argila cozida, com idades bem estabelecidas, coletados na América do Sul.
A escolha do material não é por acaso: quando queimada em altas temperaturas, a argila registra nos seus minerais a intensidade do campo magnético da época — uma espécie de fotografia magnética do planeta. Esses dados foram combinados com registros de outras regiões para construir um novo modelo global do campo ao longo de dois mil anos.
O modelo indica que, entre os anos 1 e 850 da nossa era, uma anomalia semelhante já havia migrado do Oceano Índico até o norte da América do Sul, em trajetória parecida com a atual. A anomalia moderna teria surgido no Oceano Índico depois de 1100 e atravessado a África antes de alcançar o continente sul-americano. O fenômeno, portanto, não é inédito.
Sem inversão de polos no horizonte
Um dos pontos centrais do estudo é o que ele não conclui: pesquisadores e especialistas independentes são categóricos ao afirmar que a AMAS não sinaliza uma inversão iminente dos polos magnéticos — evento em que norte e sul magnéticos trocam de posição, algo que já ocorreu várias vezes na história geológica da Terra.
“O trabalho não implica que estejamos diante de uma inversão iminente do campo magnético, mas melhora de forma clara a base científica necessária para entender a evolução futura do escudo magnético terrestre”, afirmou Santiago Belda, professor da Universidade de Alicante, na Espanha. A explicação mais provável para o padrão de migração envolve a interação entre o núcleo externo líquido do planeta e estruturas profundas do manto terrestre localizadas sob a África.
Brasil monitora a anomalia com rede de observatórios
NASA e ESA já acompanham a irregularidade de perto. Os satélites são programados para entrar em standby ao cruzar a região da AMAS, reduzindo o risco de danos a componentes eletrônicos. No Brasil, o Observatório Nacional opera duas estações principais: o Observatório Tatuoca, em uma ilha em Belém (PA), e o centenário Observatório Vassouras, no interior do Rio de Janeiro, além de uma estação recentemente instalada em Macapá.
O país, por estar no centro da anomalia e dispor historicamente de poucos dados locais, está em posição privilegiada para aprofundar estudos em geomagnetismo — e contribuir para o entendimento de como esse escudo invisível evolui ao longo do tempo.
